O complemento indirecto e o preposicionado - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O complemento indirecto e o preposicionado

Na frase "Envolveram-se em confrontos", "em confrontos" é c. indirecto?
Será legitimo ensinar que o complemento indirecto se encontra, perguntando ao verbo "a quem?"

Luísa Delgado Professora Portugal 5K

Os gramáticos dividem-se um pouco relativamente àquilo que consideram complemento indirecto (doravante CI). Alguns distinguem CI de complemento preposicionado, reservando a primeira denominação somente para alguns dos complementos introduzidos pela preposição a – de acordo com isto, «em confrontos» não é CI, pois é introduzido por uma preposição diferente.

Outros gramáticos há que consideram que todos os complementos verbais introduzidos por uma preposição são CI – segundo esta acepção de CI, «em confrontos» será o CI da frase apresentada.

Quanto à segunda questão, esse método não classifica como indirectos complementos que não são indirectos, mas não permite identificá-los todos (mesmo na acepção mais estrita de CI).

Existe outro teste para a identificação de CI, que é a possibilidade de substituição de todo o constituinte preposicionado pelos pronomes «lhe» ou «lhes». Na verdade, este também não é melhor: ambos os testes podem falhar quando o CI não refere uma entidade humana, uma vez que tanto os pronomes pessoais como o interrogativo «quem» tendem a aplicar-se apenas a pessoas. Mas não faz muito sentido dizer que, numa expressão do tipo «obedecer a alguém», «a alguém» é o CI de «obedecer», mas que, numa expressão do tipo «obedecer a algo», «a algo» é o complemento preposicionado do mesmo verbo – não faz sentido porque eles não co-ocorrem na mesma frase, isto é, "obedecer a algo a alguém" é impossível, o que mostra que são a mesma coisa. Assim, o teste mais eficaz será a possibilidade de formular uma interrogativa com «a quem» ou com «a quê»/«a que é que». Este teste permite identificar como CI também os complementos introduzidos pela preposição «a» de verbos como «obedecer» ou «sobreviver», mesmo quando estes complementos não referem entidades humanas. É de notar que as gramáticas que favorecem uma concepção mais restrita de complemento indirecto reconhecem que eles podem designar entidades não humanas.

Refira-se ainda que nem todos os complementos introduzidos pela preposição «a» são CI (na concepção mais estrita, uma vez que na concepção mais lata de CI, todos os complementos preposicionados o são): um complemento de um verbo como «ir» iniciado por esta preposição não é um CI e o que nos mostra isso é o facto/fato de que a frase em que esse constituinte é substituído por um interrogativo não pode começar por «a que é que», mas antes por «aonde»: «Fui a Lisboa» – «Aonde foste?», mas não "A que é que foste?" (uso «a que é que» em vez de «a que» porque o teste com «a que» só resulta se não se seguir nenhum nome: se se fizer o teste com «a que», ele falha se se usar um nome imediatamente a seguir:
«A que sítio foste»?»).

Francisco Costa