Concordância verbal: «duas é bom»
Considere a frase:
«Uma cerveja é pouco, duas é bom, três é ... bom demais!»
Por que não há concordância entre «duas» e «bom», entre «três» e «bom»? Há erros?
Obrigado.
Considere a frase:
«Uma cerveja é pouco, duas é bom, três é ... bom demais!»
Por que não há concordância entre «duas» e «bom», entre «três» e «bom»? Há erros?
Obrigado.
A razão pela qual não dizemos «duas são boas, três são... boas demais» nessa frase é que, no fundo, não estamos falando das garrafas de cerveja em si, mas sim do ato de beber ou da quantidade total.
É simples: quando pensamos na ideia implícita de «beber duas cervejas», a frase se refere a uma ação completa, é uma proposição nominalizada; quer dizer, o sujeito real da oração não é «cervejas», mas sim uma situação ou conceito abstrato – algo como «(Beber) duas cervejas] é bom».
Podemos ver isso com clareza se compararmos as três partes da frase:
- (Tomar) uma cerveja é pouco.
- (Tomar) duas cervejas é bom.
- (Tomar) três cervejas é bom demais.
Como as ações e as ideias abstratas funcionam como um conceito não marcado no português, o verbo permanece no singular («é») e o adjetivo no masculino não marcado («bom») – exatamente como em «mentir é feio», «acordar cedo é difícil», «duas horas de reunião é muito», etc.
Além disso, a gramática determina que expressões como «é bom», «é proibido», «é necessário» só mudam para o feminino ou para o plural se houver uma palavra delimitadora antes do sujeito, como o artigo as. Se a frase fosse «As duas cervejas são boas», a concordância seria obrigatória porque estaríamos especificando exatamente quais são elas. Sem esse as, a palavra duas funciona apenas como uma medida genérica, mantendo a expressão invariável: «duas é bom».
Essa construção é extremamente comum no nosso dia a dia e aparece em várias outras situações semelhantes. Usamos essa mesma lógica quando dizemos «cinco minutos é pouco», «dez quilos é bastante»... Em todos esses casos, como o foco está na medida ou no conceito geral, a língua mantém tudo no masculino singular.
Sempre às ordens!