A divergência entre a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), de 1959, e a Nomenclatura Gramatical Portuguesa (NGP), de 1967, não foi um "descuido" histórico, mas o resultado de escolhas teóricas e metalinguísticas distintas sobre como a língua deveria ser ensinada e organizada.
Para além do óbvio fator cronológico, existem alguns pilares fundamentais que explicam por que Brasil e Portugal seguiram caminhos diferentes no registro oficial de suas gramáticas.
A maior discórdia (o caso do futuro do pretérito vs. modo condicional) se encontra na interpretação da função dessa forma verbal.
No Brasil, a comissão liderada por nomes como Rocha Lima buscou uma simplificação estrutural. Argumentou-se que o cantaria tem uma origem morfológica ligada ao futuro. Se ele indica uma ação futura em relação a um ponto no passado, ele é, tecnicamente, um tempo. Como mantém uma relação de relativa certeza (mesmo que condicionada), foi agrupado didaticamente no modo indicativo.
Portugal, por sua vez, seguiu a tradição das línguas românicas (como o francês e o espanhol). Para os gramáticos portugueses, a carga de «incerteza» e «hipótese» da forma verbal é tão forte que ela não pode habitar o modo da realidade (indicativo). Portanto, deve ser um modo à parte.
Outro ponto é que a diferença de quase dez anos entre a NGB e a NGP reflete o momento em que cada país absorveu as correntes da linguística moderna:
No Brasil de 1959, havia um movimento de reestruturação da gramática escolar, tentando torná-la menos dependente do modelo latino clássico. A NGB foi, de certa forma, um esforço para criar uma identidade pedagógica brasileira que facilitasse o ensino público em expansão, priorizando a lógica interna do sistema verbal. Por sua vez, a NGP foi influenciada pela tradição filológica europeia e pelo estruturalismo francês. Parece que, enquanto o Brasil tentava se descolar do peso da tradição para fins pedagógicos, Portugal buscou manter a harmonia terminológica com o restante da Europa.
Ainda cumpre dizer que a NGB nasceu de um decreto (Decreto nº 44.652/58) com um objetivo bem pragmático: acabar com a anarquia terminológica nos livros didáticos brasileiros, que variavam drasticamente de autor para autor. Não foi uma decisão puramente científica, mas uma decisão de política linguística para unificar o ensino.
Portugal, ao elaborar sua NGP em 1967, já conhecia a NGB. O fato de não a terem adotado integralmente foi uma escolha de soberania científica. Parece que se considerava a proposta brasileira excessivamente simplificadora em certos pontos e preferiram manter distinções que consideravam mais precisas do ponto de vista da análise lógica e histórica.
O que ao consulente causa confusão é o fato de olharmos para a mesma língua através de lentes teóricas diferentes. A discordância não é sobre como se fala, mas sobre como se "etiqueta" o que se fala. Infelizmente, a tentativa de unificação raramente atinge a nomenclatura gramatical, pois esta toca a autonomia pedagógica de cada país.
Sempre às ordens!