«Moda de bem falar e escrever» em língua portuguesa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Moda de bem falar e escrever» em língua portuguesa

1. Tem vindo a verificar-se, nos últimos tempos, até de pessoas com altos cargos nos destinos da nossa nação, a utilização, em crescimento exponencial, da expressão «... por forma a que...».

Não estará a ser utilizada incorrectamente tal expressão? Não deveria ser utilizada a expressão, que sempre ouvi, desde a minha infância, «... de forma a que...»?

2. Outras jóias da actual «moda de bem falar e escrever» em língua portuguesa: «... vou-vos dizer (vou dizer-vos)...»; «... o jogador tem-se vindo a revelar (tem vindo a revelar-se)...»; «... vou com vocês (vou convosco)...».

Aliás, relativamente a este último exemplo, concluo todos os dias que já ninguém conjuga correctamente a 2.ª pessoa do plural das nossas formas verbais... parece até que se tem vergonha de dizer-se «vós ides por ali», em vez do já tão banal «vocês vão por ali»...

Cumprimentos cordiais.

José Manuel Pereira Técnico de informática Agualva-Cacém, Sintra, Portugal 4K

1 — As preposições são elementos funcionais que estabelecem a ligação entre as palavras. Possuem significados pouco definidos e bastante diversos.

A preposição de, na língua latina, inicialmente, indicava o movimento de cima para baixo. Posteriormente, adquiriu outros valores. Na língua portuguesa, estabelece a relação de origem, de posse, de matéria, de causa, de modo e, por isso, é a palavra mais frequente. Assim, alguns falantes têm tendência para menor uso desta preposição tendo em vista quebrar a monotonia.

Para alguns puristas, a expressão «de forma a que» é considerada galicismo.

A preposição por tem origem na preposição latina per, que indicava o lugar por onde, e significava também «por meio de», «por causa de». Estes significados mantêm-se ainda na língua portuguesa. Assim, nada parece obstar a que a expressão «por forma a que» não deva ser utilizada, visto que tem a vantagem de quebrar a hegemonia da expressão com maior uso.

2 — A utilização da segunda pessoa do plural dos verbos portugueses encontra-se em declínio. O tratamento por delicadeza tem evoluído para as terceiras pessoas do singular e do plural, por dois motivos: coloca o interlocutor a maior distância, que corresponde a maior deferência, e utiliza formas das desinências verbais mais simples. Exemplos: «O senhor manda»/«os senhores mandam», «A senhora dizia»/«as senhoras diziam»; se usarmos formas da segunda pessoa, poderemos ter dificuldades: «tu mandaste»/«vós mandastes», «que tu faças»/«que vós façais».

As desinências da segunda pessoa do plural são as que apresentam as maiores diferenças. Exemplos: vós amais, amáveis, amastes, amáreis, amareis, amaríeis, amai, que vós ameis, que vós amásseis, se vós amardes.

Seria bom que os falantes da língua portuguesa revelassem maior segurança no uso de todas as formas verbais e lessem livros de bons autores de diversas épocas literárias.

Além disso seria conveniente que aqueles que habitualmente usam as formas da segunda pessoa do plural persistissem no seu uso porque sem oralidade não há formas gramaticais que resistam.

A. Tavares Louro
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: conjunção
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Léxico