DÚVIDAS

«Ir direito a» e «ir direto a»

Qual destas frases é correta?

«Fui direto ao assunto» ou «fui direito ao assunto»?

Tem também surgido, em vez de «foi direta para o quarto», «foi direita para o quarto».

Há alguma regra acerca disto?

O «direito» tem de ficar, obrigatoriamente, sempre no singular e masculino?

Obrigada, desde já.

Resposta

A construção prevista pela norma e descrita nos dicionários é «ir direito a(o assunto)».

No Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, a expressão «ir direito a» é descrita como tendo o valor de «abordar sem fazer rodeios», apresentando-se como exemplos as construções:

(1) «ir direito a um assunto»

(2) «ir direito a uma questão»

Note-se ainda que esta construção pode variar em género e numero, como se observa em (3) e (4):

(3) «Ela foi direita ao assunto.»

(4) «Eles foram direitos à questão.»

A construção «ir direto a» será usada sobretudo com um valor de movimento físico, como significado de «deslocar-se sem paragens para um determinado local».

No entanto, por outro lado, verifica-se que a construção «ir direto a» com o valor de «falar sem rodeios», embora menos normativa, tem registos de uso, sobretudo no português do Brasil, como se exemplifica com base numa pesquisa efetuada no Corpus do português, de Mark Davies:

(5) «Vai direto ao aspecto de importância cultural que ele representa.» (Folha de São Paulo)

(6) «No apelo, Cristiana diz que está completamente sem dinheiro e foi direto ao assunto, afirmando que está precisando urgentemente de um emprego.» (Revista Quem)

(7) «O ministro da Economia foi direto ao assunto.» (G1 - Globo)

Não obstante, a sua frequência parecer ser maior no português do Brasil, também encontramos registos de uso na variante europeia:

(8) «Sérgio Conceição foi direto à questão.» (Jornal de Notícias)

(9) «Jerónimo foi direto ao assunto.» (Observador)

Também a expressão «direto a» pode flexionar em género e número, como se observa pelos exemplos abaixo:

(10) «[...] a referência às migrações teve a precisão cirúrgica de ir direta à questão[...]» (Diário de Notícias)

(11) «Esta app junta tudo no mesmo espaço, separado por temas, de forma a poder ir direta ao assunto. » (Observador)

Contudo, se atentarmos no exemplo (6), veremos que a concordância não é feita, o que indica que nem todos os usos seguem a tendência normativa, situação que pode gerar hesitação nos falantes.

Deste modo, e em síntese, não poderemos considerar a construção «ir direto a» incorreta. Poderemos apenas afirmar que «ir direito a» será mais conforme a uma opção normativa. Para além disso, tanto uma construção como outra variam em género e número, concordando com o antecedente. 

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