Humidade vs. umidade - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Humidade vs. umidade

Tive oportunidade de consultar o texto do novo Acordo Ortográfico, no vosso excelente sítio da Internet. Contudo, continua a subsistir-me uma dúvida, que não consegui ver esclarecida na parte do Acordo Ortográfico que fala do uso da letra «h» no início e no final das palavras. Em Portugal actualmente escreve-se «humidade», com a letra «h», no Brasil actualmente escreve-se «umidade», sem a letra «h». Podiam-me dizer, de uma vez por todas, como é que vai ser escrita a forma normalizada desta palavra: com «h», ou sem «h»?

Agradecido pelo comentário possível.

Paulo Alexandre dos Santos Silva Desempregado Ponte de Lima, Portugal 12K

Que fique bem claro que o h nunca figura no fim das palavras portuguesas, exceto em interjeições (ex.: Ah!, Ih!, etc.) ou em nomes que o uso consagrou (ex.: Loth). Também nunca aparece no interior duma palavra com os elementos fundidos (diziam-se aglutinados, tradicionalmente), exceto em dígrafos (ex.: ch, nh, lh).

No início das palavras é meramente nos nossos dias um apêndice [sem qualquer som atualmente na língua], que a norma de 1945 e o novo acordo exigem só por razões etimológicas.

Numa revolução drástica e corajosa na língua (como foi a de 1911), é muito possível que estes apêndices sejam também extirpados, como já o foram letras quando dobradas, o s do sc inicial, o ph, o y, etc., e serão futuramente as consoantes não articuladas, de justificação insustentável.

Quanto ao h de humidade, ele já caiu na comunidade linguística brasileira, o que não escandaliza muito, mesmo nos nossos hábitos europeus, pois o h passa despercebido na palavra. Não lhe posso dizer “de uma vez por todas” se em Portugal humidade também se escreverá sem h no futuro, pois não encontrei a palavra no texto do novo acordo.

Só quando houver o Vocabulário Comum oficial, que estava previsto na assinatura do novo acordo, se poderão ter certezas absolutas quanto ao h ser nesta palavra definitivamente retirado em toda a lusofonia.

Mas o que lhe posso dizer, de certeza, é que, mesmo que seja admitida a dupla grafia para contentar as pessoas extremosas, a palavra sem h passará a ser legal no universo da língua; e, assim, o companheiro Paulo Silva poderá `operá-la ao apêndice´.

Aproveito para sublinhar que não defendo que a língua tenha um caráter exclusivamente fonético. A riqueza da sua adaptabilidade a todas as pronúncias da lusofonia está muito no seu caráter etimológico de base. É preciso não esquecer também que, por força do uso, algumas palavras com h inicial já têm fixação visual (ex.: hoje, hora, e deixa alguma perplexidade grafias como oje ou ora, esta que, aliás, teria de ser identificada no contexto). No entanto, é igualmente necessário lembrar que na reforma de 1911 houve quem considerasse indispensável o ph nas farmácias...

Deve-se respeitar a história das palavras porque faz parte da nossa herança social, mas já Ockham, século XIV, depois seguido por Newton, estabelecia: «O que pode ser feito com menos é feito em vão com mais»…

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho
Tema: Acordo Ortográfico Classe de Palavras: substantivo