Dúvidas sobre virgulação

Tenho algumas dúvidas sobre virgulação.

1 — «Segurava um pincel comprido na mão direita, uma paleta de tinta na esquerda e sorria.»

Há vírgula antes do e?

2 — «Porque ele não veio e ela não esperou, os dois brigaram.»

Há vírgula antes de e devido aos sujeitos diferirem?

3 — «Escrevi para explicar o engano e pedir desculpas mesmo assim.»

Há vírgula antes de mesmo assim?

4 — «Fiquei feliz, porque senti que era como se uma pessoa interessante houvesse se identificado comigo e eu, com ela.»

A vírgula, aqui, está correta? Se não, como eu deveria tê-la empregado?

Obrigada.

Flaísa Tárcila Estudante Baixo Guandu, Brasil 4K

Quando usamos as vírgulas, temos de ter em mente que umas são obrigatórias, outras são proibidas, e algumas, facultativas… Estas últimas dependem da intenção de quem as usa, ou, neste caso, da interpretação de quem as coloca. Feita esta ressalva, eu pontuaria as frases da seguinte maneira:

1 — «Segurava um pincel comprido na mão direita, uma paleta de tinta na esquerda, e sorria.»

Coloquei a vírgula antes da conjunção e, apesar de normalmente não se usar nessa situação, porque a frase apresenta duas ideias distintas (correspondendo a cada uma delas uma oração):

– A primeira oração é «Segurava um pincel comprido na mão direita, uma paleta de tinta na esquerda»;

– A segunda oração é «e sorria».

A vírgula ajuda a perceber que aquele elemento da frase («uma paleta de tinta na esquerda») faz parte da primeira oração, faz parte, aliás, do obje{#c|}to dire{#c|}to («um pincel comprido na mão direita, uma paleta de tinta na esquerda»). A vírgula ajuda a clarificar a estrutura da frase.

2 — «Porque ele não veio e ela não esperou, os dois brigaram.»

Poderia colocar a vírgula antes da conjunção e, dado as duas orações terem sujeitos diferentes, mas não obrigatoriamente.  

A frase pontuada desta forma tem uma única vírgula, que separa a oração subordinante («os dois brigaram») das outras duas orações, uma subordinada causal «Porque ele não veio» e uma oração copulativa coordenada à causal, «e ela não esperou».

Há, portanto, uma separação entre a oração subordinante e as duas orações que expressam a causa.

3 — «Escrevi para explicar o engano e pedir desculpas, mesmo assim.»

Deverá haver vírgula antes da locução adverbial mesmo assim. Trata-se de uma expressão de valor concessivo, equivalente a apesar de tudo, que modifica todo o sentido da frase. Acrescenta ao resto da frase um determinado valor (concessivo).

Se escrevêssemos apenas «Escrevi para explicar o engano e pedir desculpas», a frase, sinta{#c|}ticamente, estaria corre{#c|}ta. Da mesma forma, em vez do modificador mesmo assim, poderia existir qualquer outro, de valor diferente: conforme combinado, num impulso… A vírgula tem então a função de destacar, ou de isolar, esse elemento da frase, em relação à qual mantém uma certa autonomia.

4 — «Fiquei feliz, porque senti que era como se uma pessoa interessante houvesse se identificado comigo, e eu, com ela.»

Eu acrescentaria uma vírgula no final da oração «como se uma pessoa interessante houvesse se identificado comigo».

Na realidade, «e eu, com ela» é uma outra oração, em que o predicado está omisso: «e eu me houvesse identificado com ela». Então, a primeira vírgula, embora não seja obrigatória, faz sentido, porque temos duas orações ligadas pela conjunção coordenativa e, mas com sujeitos diferentes («como se uma pessoa interessante houvesse se identificado comigo,/e eu [me houvesse identificado] com ela»).

A segunda vírgula («e eu, com ela») é obrigatória, porque serve para indicar que o predicado está omisso.

Maria João Matos
Tema: Uso e norma