Ainda Barém, Barein e Bareine - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Ainda Barém, Barein e Bareine

Muita estranheza me provocou a vossa resposta n.º 26759 sobre a forma «Bahrein» e o respectivo gentílico. Não é minha intenção corrigir-vos, e nem refutar a vossa resposta, mas gostaria de expor a minha interpretação. Eu sempre conheci o nome do país como «Bahrain» (بحرين). Sabendo eu que a língua árabe só possui três vogais (i, a, u) parece-me estranho uma grafia com e. Consequentemente, sempre pronunciei a parte final com um ditongo oral seguido de consoante nasal [ajn], e nunca como ditongo nasal [ɐ̃j] (como se fosse «ãe»). Por isso, provoca-me estranheza o «m» em «baremita»... Parece-me haver pequenas confusões sucessivas entre a escrita e a pronúncia. Deduzo que, a partir da forma escrita «Bahrein», alguém deve ter pronunciado as três últimas letras como se fossem um ditongo nasal (os Brasileiros, ao verem uma palavra escrita com uma consoante final nasal, pronunciam sistematicamente com uma vogal nasal, mesmo quando essa palavra não pertence à língua portuguesa!). Depois, a partir da pronúncia com ditongo nasal, aportuguesou-se a palavra para «Barém» (quando talvez, para ser mais fiel à pronúncia original, podia ter sido algo como «Baraine», por exemplo). E seguidamente, a partir da forma escrita «Barém», forjou-se o gentílico «baremita», sem no entanto nunca ter existido o fonema «m» que justificasse tal formação. Conforme o que eu tinha dito antes, não pretendo ter a arrogância de corrigir-vos. Mas talvez os «fazedores» da língua portuguesa possam ter um critério mais uniforme quando tentarem aportuguesar nomes estrangeiros: ou apoiam-se unicamente na grafia, ou apoiam-se unicamente na pronúncia. Obrigado pela atenção.

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Barém é forma tradicional, resultado do modo como os portugueses do século XVI interpretaram a terminação "-ayn" da palavra árabe (um dual, de acordo com o Dicionário Houaiss). As formas Barein e Bareine surgem atestadas no português do Brasil (ver Dicionário Houaiss) e afiguram-se-me de introdução ou criação recente, talvez influenciadas por transcrições inglesas de uso internacional. Quanto à forma "Baraine", é certamente mais próxima de uma transliteração da forma escrita árabe (بحرين, como informa o consulente), mas não tem tradição em português. De qualquer modo, gostaria de observar que, em muitas variedades do árabe, históricas ou contemporâneas, o a soa como e, fenómeno que é conhecido como imala.1 Sendo assim, é provável que a forma Bareine seja a mais próxima da realidade fonética árabe.

Já o gentílico baremita é realmente discutível, porque muitas palavras terminadas em -em têm gentílico com -n-: Belém > belenense. Normalmente, o critério seguido nestes casos de derivação é de carácter etimológico. Por exemplo, o gentílico de Sudão é sudanês, que pressupõe uma forma do radical Sudan-, mais "próxima da  palavra árabe original, conforme se pode verificar no Dicionário Houaiss, onde se encontra o seguinte comentário: «em autores árabes medievais aparece o nome ár. Bilad-al-Suden, Bilad-es-Sudan, modernamente Bilād-as-Sūdan "o país dos negros", fonte do port. Sudão, esp. Sudán, it. ing. al. Sudan, fr. Soudan, cursivos a partir do sXVI-XVII». Posso referir outro caso, o de Lafões, designação de uma região portuguesa: aceita-se a explicação de David Lopes segundo a qual este topónimo vem «do ár[abe] árabe al-akhūān, "os dois irmãos", denominação que se deve ao facto de [que] no local, perto de Viseu, teriam existido dois critérios» (José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa); sem entrar na discussão de como Lafões pode ser adaptação e evolução de palavra árabe, interessa é verificar que a sequência vogal + n em fim de palavra é transposta em português com ditongo nasal e, por conseguinte, o respectivo gentílico exibe essa consoante: lafonense.

Em suma, a vogal (ou ditongo como em Bahrayn) seguida de n2 que termine palavra árabe ou de outra origem passa a ditongo nasal em português. Seria, portanto, de esperar que o gentílico de Barém tivesse também um n no radical, o qual permite formar, por exemplo, "barenita" ou "barenês". O gentílico baremita é, portanto, discutível, porque, como sugere o consulente, é induzido pela grafia e não pela etimologia nem pela morfologia. Já a forma bareinita me parece aceitável, à luz do que afirmo mais acima.

1 Segundo o Dicionário Houaiss, imala é um «fenômeno fonético próprio de vários dialetos árabes, antigos e modernos, como o dos árabes que ocuparam a península Ibérica, em que o fonema /a/, ger. longo, se pronuncia (em certas circunstâncias), como (e) ou (i); deixou conseqüências na mudança de (a) do latim para (e), como em beldroega, que vem do latim portulaca». Sobre o imala, ver também (em inglês) Kees Versteegh, The Arabic Language, Edimburgo, Edinburgh University Press, 2001, págs. 89, 153, 154, 160, 193.

2 Trata-se do som representado, em português, pela letra n em início de sílaba. Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, pág. 45) descrevem-no como uma consoante nasal oclusiva alveolar. Na terminologia proposta por António Emiliano, Fonética do Português Europeu: Descrição e Transcrição (Lisboa, Guimarães Editores, 2009, pág. 125), é uma consoante nasal laminoalveloar.

Carlos Rocha
Classe de Palavras: nome próprio