A pronominalização de «ser leal/fiel a alguém» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A pronominalização de «ser leal/fiel a alguém»

Em frases como as seguintes:

«Eu te sou leal.»

«Ela era-lhe fiel.»

as formas dativas te, lhe são consideradas como dativo ético, dativo de interesse ou complemento indireto?

Nesse contexto, o verbo ser é dito copulativo? O dativo ético é o mesmo que dativo de interesse?

Desde já grato ao vosso trabalho.

José de Vasconcelos Saraiva Estudante de Medicina Foz do Iguaçu, Brasil 42

Nos casos em apreço, as formas dativas do pronome desempenham a função de complemento do adjetivo.

Nas frases, o sintagma adjetival, composto por um núcleo adjetival, leal e fiel, poderia ser acompanhado por constituintes como os apresentados em (1) e (2):

(1) «Eu sou leal aos meus amigos

(2) «Eu sou fiel ao meu colega

Os constituintes «aos meus amigos» e «ao meu colega» desempenham a função de complemento do adjetivo e podem ser substituídos por um pronome clítico:

(1a) «Eu sou-lhes leal.»

(2a) «Eu sou-lhe fiel.»

Nas frases apresentadas pelo consulente, verifica-se a mesma situação. 

Por sua vez, o dativo ético e o dativo de interesse integram os chamados “dativos éticos”. Estes constituem termos que «aparecem sob forma de objeto indireto, nominal ou pronominal […] [e] não estão direta ou indiretamente ligados à esfera do predicado» (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa. p. 350). Neste âmbito, o dativo de interesse indica quem beneficia da ação verbal:

(3) «Vive para os filhos

(4) «Abriu-me o livro na página certa.»

O dativo ético é comum na oralidade e é expresso por um pronome que fica fora do espaço do complemento indireto, como se observa na frase (5), na qual «às crianças» desempenha a função de complemento indireto:

(5) «Não me deem bolo às crianças»

O dativo ético, representado pelo pronome me, evidencia uma estratégia de captar a atenção do interlocutor e de o levar a concretizar a solicitação do locutor (cf. ibidem)

 

Disponha sempre!

Carla Marques
Classe de Palavras: pronome