A coordenação num sujeito composto - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
A coordenação num sujeito composto

No decurso da realização de um questionário sobre a cena do Onzeneiro [no Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente] surge, na parte da gramática, a seguinte frase: «Quem não cometeu pecados e quem não tem vícios pode evitar seguir no batel do Diabo.» O tipo de sujeito que vem identificado na correção é, naturalmente, sujeito composto. Após alguns exercícios, uma aluna inquiriu sobre a possibilidade de existência de um "sujeito composto indeterminado". Embora nunca tenha visto nenhum exemplo escrito, parece-me que, na frase «Pensa-se e diz-se que é possível que haja vida noutros planetas» ou em «Diz-se e faz-se!» e muitas outras, poderíamos/poderemos ter exemplos disso mesmo. No entanto, e porque quando procuro apenas encontro exemplos isolados de cada um dos tipos de sujeito, gostaria de saber o que responder-lhe, até porque a questão me pareceu bastante pertinente.

Grata pela atenção.

Arminda Pinheiro Professora Pombal, Portugal 6K

A pergunta é, na verdade, pertinente, mas na resposta deve chamar-se a atenção para o facto de a coordenação constituir uma forma de articulação entre vários tipos de constituintes. Assim:

a) se articularmos dois grupos nominais, ambos com a função de sujeito na mesma frase, falamos de sujeito complexo («Ele e ela podem evitar entrar no batel»);

b) se articularmos duas orações, como é o caso («quem não cometeu pecados» e «quem não tem vícios»), desempenhando as duas, no entanto, a função de sujeito da frase em que se encaixam, também falamos de sujeito complexo (é curioso verificar que não é possível aplicar a concordância no plural, embora se trate de um sujeito complexo: «quem... e quem pode evitar...»);

c) mas, se articularmos duas orações, sem que estas se encaixem numa frase matriz para aí desempenharem a função de sujeito (p. ex., «Eles cometeram pecados e têm vícios»), não falamos em sujeito composto, porque cada oração tem o seu próprio sujeito, mesmo que estejam subentendidos (como é o caso em «e têm vícios»).

Na frase «pensa-se e diz-se que é possível que haja vida noutros planetas», se o pronome se for interpretado como sujeito indeterminado1, o facto de ele se repetir nas duas orações coordenadas não significa que os sujeitos de cada oração estejam também coordenados e constituam, por isso, um sujeito composto. Nada disso: a coordenação associa duas orações, cada uma com o seu próprio sujeito, e não dois grupos nominais. Por essa razão, não podemos afirmar que o sujeito é composto; o que podemos é dizer que as duas orações têm os seus próprios sujeitos indeterminado.

1 Os gramáticos mais tradicionalistas rejeitariam se como marca de sujeito indeterminado em associação com um verbo transitivo. Visto pensar e dizer serem usados transitivamente na frase em apreço, classificariam aí o pronome se como partícula apassavidora. Nesta perspetiva, e mudando a ordem de elementos na frase para facilitar a exposição, verifica-se que, em «que é possível que haja vida noutros planetas pensa-se e diz-se», o sujeito da primeira oração tem natureza oracional – é a oração completiva «que é possível que haja vida noutros planetas» – e o da segunda («e diz-se») é um sujeito indeterminado subentendido, correferente do sujeito da primeira.

Carlos Rocha