DÚVIDAS

Abertura (18/04/1997)
«Aqui posso emprestaras palavras mais densas» O escritor guineense Carlos Lopes, no texto que escreveu para a Antologia de Ciberdúvidas, explica uma aparente contradição:«(...) Paradoxalmente é o português que me aproxima da minha dimensão africana, porque ele serve de alimento a uma outra língua - o kriol - que é a raiz da contemporaneidade guineense. (...) Em nenhuma outra língua, nem mesmo em kriol (devido à sua jovem normalização), me sinto tão à vontade. Aqui posso emprestar as palavras mais densas, os verbos mais aristocráticos, as sílabas mais estridentes, as expressões mais amargas, sem qualquer hesitação fonética. (...)»Este guineense, que também se exprime em espanhol, francês e inglês (além do italiano, alemão e grego), diz do nosso idioma comum o que muitos portugueses seriam incapazes de dizer. Apoucando-o, alguns disfarçam mesmo a falta de talento com a apologia das línguas mais diversas: uma porque permite transmitir melhor a oralidade, outra porque é mais adequada às letras das canções ou outra ainda porque tem uma gramática mais simples, todas, perante a nossa, só apresentam vantagens. Não é problema apenas de hoje, nem é complexo que se restrinja a Portugal.A Língua Portuguesa, felizmente, pertence também a mais seis países, e é de lá que muitas vezes nos vem, neste capítulo, o estímulo de que necessitamos.Daí o nosso esforço para alargar a participação de falantes de todos os países que utilizam o português como língua oficial. Na próxima reestruturação de Ciberdúvidas, procuraremos concretizar ainda mais esse empenho. Afinal, uma das melhores formas de responder aos que, com má-fé, como se pode verificar num texto hoje introduzido nas Controvérsias, procuram reduzir o nosso trabalho a um exercício de pedantismo.
Abertura (11/04/1997)
Gulbenkian e Mia Couto Registamos com agrado o facto de a Fundação Calouste Gulbenkian nos ter anunciado a decisão de cobrir parte dos custos da instalação de Ciberdúvidas. É, assim, a primeira fundação cultural a patrocinar este projecto sobre a Língua Portuguesa. "Língua que aceita brincadeiras", como há semanas escreveu, num convite implícito, na Antologia, o romancista angolano Pepetela. O escritor moçambicano Mia Couto acaba de aceitar o convite com "Perguntas à Língua Portuguesa", um texto redigido propositadamente para Ciberdúvidas, em que o autor se recreia com tonalidades e sentidos do idioma comum, em mutação permanente. Sinais desta mudança são registados em Controvérsias, num artigo do jornalista angolano Rui Ramos: "Luandês, a nova língua da lusofonia". Dentro de algum tempo, após a reestruturação que vamos realizar em Ciberdúvidas, contamos incluir numa nova rubrica - Diversidades - textos como o de Rui Ramos, porque, antes de polémicos, eles são acima de tudo recolhas necessárias das diferenças que fazem do português uma língua viva.
Indagar e averiguar (com ou sem preposição de)
Ultimamente, ouve-se com frequência crescente a utilização das partículas à frente de verbos como indagar, averiguar, saber, aferir, perguntar, em expressões como «É preciso aferir da seriedade das afirmações proferidas», «Para averiguar do seu grau de pureza», «Indagar das suas intenções», etc. Não seria mais correcto dizer-se, por exemplo, «indagar as suas intenções» ou «indagar acerca das suas intenções» ou ainda «indagar sobre as suas intenções»? Ou o que está aqui em causa é apenas a omissão do «acerca» que permanece subentendido na frase?
"Adulthood" = idade adulta
Que sugerem para designar a condição de adulto ou a etapa da vida correspondente à vida adulta? Como traduzir o termo inglês "adulthood"? Adultez? Alguns dicionários que consultei não trazem a palavra. Entretanto, já vi escrito «adultícia» (que me faz lembrar estultícia). Não deixa de ser esquisito que haja substantivos para designar a condição infantil, juvenil ou «outonal» e não exista o termo para a fase da adultez. Será porque são habitualmente os adultos aqueles que «nomeiam»/enunciam o mundo?
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