«A sorte do jogo podia ter ficado decidida…»
Exemplo de texto, retirado há alguns dias do “site” do jornal Record:
«Ou seja, a sorte do jogo podia ter ficado decidida se o Sporting tem feito um segundo golo, como teve ocasiões para o fazer.»
O uso de uma forma do presente do indicativo em vez do condicional ("tem" em vez de "tivesse", como parece lógico) está cada vez mais difundido. Penso tratar-se de um regionalismo, propagado por um certo estilo "castiço" de falar e escrever, nomeadamente no "futebolês".
Peço-vos por favor que me esclareçam esta dúvida – é gramaticalmente correcto ou aceitável, ou trata-se de um novo uso da língua?
Muito obrigado.
Também e só
A ambiguidade da palavra também pode ser explicada sintaticamente?
Partamos da frase: «João foi ao jogo.»
Nela, podemos incluir a palavra “também” com dois sentidos distintos:
1) Também João foi ao jogo = [além de José,] também João foi ao jogo
2) João foi ao jogo, também = João foi [à festa e] ao jogo, também
Sem contar opções mais ambíguas (quanto mais próximo ao verbo, maior a ambiguidade):
3) João também foi ao jogo – mais próxima ao exemplo 1, mas pode gerar ambiguidade
4) João foi também ao jogo – mais próxima ao exemplo 2, mas pode gerar ambiguidade
Todas as gramáticas e dicionários classificam o também como advérbio e adjunto adverbial «de adição» ou «de inclusão». Contudo, é interessante notar que:
a) no exemplo 1, o também adiciona uma informação ao sujeito;
b) no exemplo 2, o também adiciona uma informação ao objeto indireto.
Fenômeno análogo ocorre com o advérbio só, embora com diferenças, p.ex.:
1) Só João vai ao jogo = e ninguém mais vai com ele = referente ao sujeito => inequívoco;
2) João só vai ao jogo = (não faz mais nada = referente ao verbo) OU (não vai a mais nenhum lugar = referente ao objeto);
3) João vai só ao jogo = (não vai a mais nenhum lugar = referente ao objeto) OU (vai sozinho = adjetivo);
4) João vai ao jogo, só = (só isso acontece) OU (foi sozinho = adjetivo).
No entanto, no exemplo citado, o fenômeno não acontece com outros advérbios, como sempre e nunca:
– Sempre/nunca João vai ao jogo = João sempre/nunca vai ao jogo = João vai ao jogo, sempre/nunca = é o que ele sempre/nunca faz.
A variedade de sentidos aumenta em frase que usa verbo bitransitivo. P.ex., com também:
1) Também João deu um presente a Maria = outra pessoa também deu = referente ao sujeito;
2) João também deu um presente a Maria = João também fez outras coisas, além de dar um presente = referente ao verbo;
3) João deu também um presente a Maria = João também deu outras coisas, como um abraço = referente ao objeto direto;
4) João deu um presente também a Maria = João deu também a outra pessoa = referente ao objeto indireto;
5) João deu um presente a Maria, também = ambiguidade.
Com só:
1) Só João deu um presente a Maria = ninguém mais deu = referente ao sujeito;
2) João só deu um presente a Maria = João só fez isso = referente ao verbo;
3) João deu só um presente a Maria = João deu só um, não dois presentes = referente ao objeto direto;
4) João deu um presente só a Maria = João deu só a Maria, a ninguém mais = referente ao objeto indireto;
5) João deu um presente a Maria, só = forma incomum, truncada
Já com sempre e nunca, o significado antes invariável apresenta agora sutis variações.
Comecemos com o sempre:
1) Sempre João dá um presente a Maria = ambiguidade (sempre ele ou segue o sentido 2);
2) João sempre dá um presente a Maria = sempre faz a mesma coisa = referente ao verbo;
3) João dá sempre um presente a Maria = nunca dá outra coisa = referente ao objeto direto;
4) João dá um presente sempre a Maria = nunca a outra pessoa = referente ao objeto indireto;
5) João dá um presente a Maria, sempre = ambiguidade (segue 2 ou 4).
Agora com nunca:
1) Nunca João dá um presente a Maria = ambiguidade (segue 2 ou, incomum, nunca ele);
2) João nunca dá um presente a Maria = nunca faz isso = referente ao verbo;
3) João [não] dá nunca um presente a Maria = sem o acréscimo do “não” é incomum, com o “não” segue 2;
4) João [não] dá um presente nunca a Maria = incomum, segue 3;
5) João [não] dá um presente a Maria, nunca = segue 3
Apesar disso tudo, continuam todos sendo adjuntos adverbiais (exceto o só, que numa das frases acima é adjetivo, como indiquei).
Há alguma explicação sintática para a mudança de sentido conforme sua colocação na frase?
Muito obrigado pela atenção.
Datação de quiromancia e ortodontia
Gostaria de saber, se possível, as datas em que as palavras quiromancia e ortodontia apareceram na língua portuguesa. Obrigado.
Bonitos
Gostaria de saber se quando temos dois substantivos, por exemplo carro e casa, o acordo do adjectivo é bonito ou bonitas.
Nove anos de Ciberdúvidas
Ciberdúvidas completa nove anos de existência neste domingo, dia 15 de Janeiro. Nove anos não isentos de percalços e vicissitudes decorrentes de um projecto desta natureza – um verdadeiro serviço público, de acesso totalmente gratuito, sem fins lucrativos, como não há outro no mundo da lusofonia.
Por isso, nunca é de mais realçar as entidades que garantiram, primeiro, a sua continuação, a seguir ao falecimento de João Carreira Bom – a Universidade Lusófona, em cujas instalações passou a funcionar o Ciberdúvidas, e o portal SAPO, onde se encontra alojado; e, depois, a sua viabilização, graças aos decisivos patrocínios dos CTT e da Fundação Vodafone, desde Setembro último. Mais recentemente, o Ciberdúvidas beneficiou de um subsídio do Instituto Camões e da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação, que já antes autorizara o destacamento a tempo inteiro do professor Carlos Rocha, que tanto nos tem enriquecido com a sua competência e dedicação.
Finalmente, permita-se-nos um agradecimento muito especial a todos os nossos ilustres consultores, sem cuja generosidade e saber o Ciberdúvidas não poderia ser concretizado.
Bem hajam todos – a começar por quantos, por esse mundo fora, não dispensam, já, este espaço de esclarecimento, informação e reflexão sobre a Língua Portuguesa.
Os nomes dispersão e dispersividade
Sempre com um grande abraço de agradecimento pelo extraordinário trabalho que fazem, a pergunta: pode-se usar a palavra dispersidade, com relação ao que está disperso?
Ainda a lusofonia
Li uma resposta vossa a uma demanda sobre o que era lusofonia, a resposta foi que era algo que alguém de fora adoptava ao adoptar a língua portuguesa, é mesmo assim? Se assim for, a maior parte de nós utiliza mal a palavra. É que para mim lusofonia é um estado de alma que me faz sentir a um leme e ser mais que eu, ser um povo que quer o mar que é nosso... Expliquem-me melhor que é isso de lusofonia? Por favor.
O conceito de frase na TLEBS (Portugal)
Gostaria que me esclarecesse o conceito de frase à luz da nova terminologia linguística, tendo em conta que frase assume um sentido abrangente, sendo até equivalente a oração. Obrigada pela atenção prestada.
A expressão «dar o nome de»
Qual a formulação correta: «dar o nome de x», ou «dar o nome x»?
Se, no caso do verbo chamar, é importação do Brasil a utilização da preposição de, será que na designação «dar o nome» se deve apor a preposição de, ou ela também está a mais?
Hipoactividade
Qual a forma correcta de escrever: "hipoactividade", "hipo-actividade", ou "hipo actividade"?
Obrigado.
