Susana Ramos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Susana Ramos
Susana Ramos
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Licenciada em Estudos Clássicos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e pós-graduada em Ensino do PLE/L2 pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi docente de Português L2/LE no Instituto Camões em Paris entre 2009 e 2010 e professora estagiária de PLE/L2 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto entre 2010 e 2011.

 
Textos publicados pela autora

A palavra memória, do latim memorĭa, memorĭae, por sua vez, de mĕmor, mĕmōris, «aquele que se lembra, que se recorda», pode ter vários significados consoante o contexto em que ocorre. Nos exemplos que o consulente apresenta, memória refere-se à «dissertação sobre tema ou matéria de ciência, arte, cultura etc., para publicação ou apresentação em congresso, sociedade científica, associação, etc.» (cf. Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa).

De facto, enxabido e desenxabido (insípido, sem sabor) são palavras sinónimas, cujo étimo latino é insapidus. O prefixo de origem latina des-, com o sentido de «separação, ação contrária», pode, no entanto, também exprimir «aumento, reforço, intensidade» (cf. Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa): refira-se, por exemplo, o par inquieto/desinquieto, no qual o segundo elemento significa «muito inquieto» (idem). Sendo assim, verifica-se que a adjunção do prefixo des- à palavra enxabido não veicula uma noção de ação contrária, mas, sim, reforça a ideia do que é insípido ou sem sabor.

A palavra chico, que deriva do italiano cica, significa «pequeno». O vocábulo foi emprestado a outras línguas latinas, como ao português, significando «menino», «rapaz». A expressão chico da rua pode significar, portanto, «rapaz» ou «menino da rua», não deixando de ter um caráter autointerpretável, como, por exemplo, um rapaz que passa muito tempo na rua (a brincar, com os amigos, sozinho, etc.).

O quantificador universal todos, em português europeu, é sempre seguido de artigo definido, como em «todo o homem é mortal» ou «todos os dias vou para o trabalho».

Em português brasileiro, faz-se a diferença de uso entre todo o e todo, tal como podemos ver no Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa:

a) «Todo o dia foi de chuva.»

b) «Todo cidadão tem direitos e deveres.»

Em a), significa que «o dia inteiro foi de chuva», e em b), significa que «qualquer cidadão tem direitos e deveres».

No plural, «é obrigatório o emprego do artigo: «todos os cidadãos têm direitos» (idem).

Em português brasileiro, seria correto dizer «todo homem é mortal».

Embora os nomes dos dias da semana sejam precedidos de artigo definido quando ocorrem depois de preposições («no sábado»; cf. Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, p. 219/220, 2002), o uso de até, nas fórmulas de despedida e mesmo para definir, em geral, o limite de um intervalo de tempo, é feito sem artigo com qualquer nome relativo aos dias da semana, desde que este ocorra sem qualquer especificação: «Então, até sábado»; «A documentação deve ser entregue até sexta-feira» (mas «até à última sexta-feira de cada mês»).

Refira-se que, no Corpus do Português, por exemplo, a expressão «até sábado» tem 28 ocorrências como em:

(1) «Bem, até sábado. Não esqueça o beijinho para o neto» (Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires), e a expressão «até ao sábado» não tem nenhuma.