Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Sara Mourato
Sara Mourato
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Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2 pela mesma instituição. Com pós-graduação em Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, trabalha na área da revisão de texto. Exerce ainda funções como leitora no ISCTE e como revisora e editora do Ciberdúvidas.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Deve dizer-se «consolidação de conhecimentos» ou «solidificação de conhecimentos»?

Resposta:

Ambas as opções estão corretas, mas apresentam ligeiras diferenças de uso.

No dicionário Houaiss, consolidação é definido como o ato ou efeito de tornar(-se) sólido, firme, estável, aplicando-se por metáfora ao processo de estabilizar uma característica, uma instituição ou algo semelhante, como em «a consolidação da democracia» ou «a consolidação do caráter». Solidificação, segundo a mesma fonte, pode referir-se, também por metáfora, à passagem de uma fase de instabilidade e insegurança a uma situação estável, como em «a solidificação das conquistas sociais» (ibidem). Por outras palavras, os nomes em questão são praticamente sinónimos, e, em princípio, «consolidação de conhecimentos» e «solidificação de conhecimentos» são expressões equivalentes e corretas.

Contudo, uma consulta do dicionário da Academia das Ciências de Lisboa e do Corpus do Português confirma que consolidação aceita como complemento uma expressão nominal cujo núcleo é realizado por nome de significado abstrato (democracia, caráter, conhecimentos). Por seu lado, solidificação ocorre sobretudo literalmente, na aceção de «passagem do estado líquido ao estado sólido» («solidificação de água/magma/platina»).

Recomenda-se, por isso, o uso de consolidação quando se pretende referir a estabilização ou fixação de conhecimentos, pelo que «consolidação de conhecimentos» é mais corrente do que a expressão «solidificação de conhe...

<i>Athleisure</i>
Um neologismo na linguagem da moda contemporânea

Nos últimos anos, o termo athleisure tem ganhado popularidade na moda, refletindo a fusão entre roupas desportivas e estilo casual. Assim como outros neologismos, esta expressão em inglês tem sido adotada no português sem adaptação, levantando questões sobre os estrangeirismos na língua. A consultora Sara Mourato explora o significado do termo e a possibilidade de encontrar uma alternativa em português.

Pergunta:

Pode-se dizer antiguíssimo, ou só antiquíssimo é correto?

E o superlativo de bom, pode ser boníssimo?

Resposta:

A forma antiquíssimo é tradicionalmente considerada a forma correta do grau superlativo absoluto sintético de antigo. A formação do superlativo tem por base o radical da palavra em latim clássico (antiqu-, de antiquus), como outros superlativos transmitidos por via erudita (frigidíssimo, nobilíssimo).  Antiquíssimo é, portanto, a forma clássica e normativa. No entanto, a forma antiguíssimo também pode ser usada, pois segue o padrão mais produtivo e regular de formação de superlativos em português – acrescentando o sufixo -íssimo ao radical do adjetivo antigo. Essa flexibilidade ocorre porque a língua permite, especialmente em contextos menos formais, o uso de variantes que sigam as regras gerais de derivação. Apesar disso, antiquíssimo é a forma mais consagrada e geralmente preferida em contextos formais ou literários.

Relativamente ao superlativo absoluto sintético de bom, é ótimo, uma forma irregular que também vem do latim (optimus). Assim, em contextos normativos e formais, ótimo é a forma correta e aceite. Contudo, à semelhança de antiguíssimo, a formação de boníssimo não está errada, uma vez que segue também as regras gerais de derivação em português, com o acréscimo do sufixo -íssimo ao radical do adjetivo. Embora pouco usada, essa forma pode ocorrer em situações informais ou até em usos literários.

Pergunta:

Quero saber se «minha autobiografia» é pleonasmo vicioso, redundância viciosa.

Muita gente diz que o prefixo auto- já é bastante sugestivo, mas, se a pessoa falar em autobiografia, pode ser a de outra pessoa; e, se falar «minha biografia», pode não ser a autobiografia, pois sim a biografia sobre si escrita por outra pessoa!

Ou será que me equivoquei a respeito?

Muitíssimo obrigado e um grande abraço!

Resposta:

A expressão «minha autobiografia» não pode ser considerada um pleonasmo vicioso. Embora o prefixo auto- já indique que se trata de uma biografia escrita pela própria pessoa biografada, o uso do possessivo minha não é necessariamente redundante, podendo servir para enfatizar ou clarificar.

De facto, autobiografia já designa um texto em que o autor narra a história da sua própria vida. Isso significa que, em princípio, a palavra autobiografia já carrega a ideia de que é "minha" (do próprio autor). Porém, o uso do possessivo pode ser útil em determinados contextos para evitar ambiguidades. Por exemplo, ao dizer-se «a minha autobiografia», estamos a diferenciar a nossa autobiografia de outra autobiografia – «a autobiografia do João», ou seja, a de um terceiro. Além disso, há uma distinção importante entre «a minha biografia» e «a minha autobiografia», pois a primeira pode ser um texto biográfico escrito por outra pessoa sobre mim, enquanto a segunda implica que eu próprio sou o autor do texto.

Portanto, embora tecnicamente o possessivo minha não seja indispensável quando nos referimos a autobiografia, o seu uso não constitui um pleonasmo vicioso. Pode ser utilizado de forma legítima para reforçar, esclarecer ou evitar confusões no contexto em que a expressão é usada.

Pergunta:

Quando e por que surgiu a expressão «segurar nas costas»? E o que ela significa atualmente?

Por exemplo: «Aquele(a) ator (atriz) segurou o filme inteiro nas costas».

Muitíssimo obrigado e um grande abraço!

Resposta:

De acordo com os significados disponíveis no Dicionário Houaiss para o verbo segurar, a expressão «segurar nas costas» transmite a ideia de carregar, sustentar ou ser responsável por algo importante. Quando se diz, por exemplo, «aquele(a) ator(atriz) segurou o filme inteiro nas costas», significa que o ator ou atriz foi o principal responsável pelo sucesso do filme, carregando a "carga" de manter o enredo e atrair o público, assumindo uma função central na produção.

A origem exata de «segurar nas costas» é difícil de precisar. No entanto, pode estar ligada à ideia de carregar um peso físico nas costas, que deve ser mantido de forma estável. Assim, por extensão semântica, «segurar nas costas» pode ter evoluído para significar a responsabilidade por algo importante, com ênfase no papel de sustentar o sucesso de um projeto, sem envolver necessariamente um esforço físico constante, que traria a expressão «carregar nas costas».