Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Sara Mourato
Sara Mourato
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Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2 pela mesma instituição. Com pós-graduação em Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, trabalha na área da revisão de texto. Exerce ainda funções como leitora no ISCTE e como revisora e editora do Ciberdúvidas.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Perguntava-vos se é possível dizer-se «no fim da tarde» ou é forçoso que se diga «ao fim da tarde»?

«No fim da tarde, sente-se um alívio.»

Obrigado.

Resposta:

As duas construções estão corretas:

(1) «ao fim da tarde sente-se um alívio»;

(2) «no fim da tarde sente-se um alívio».

De facto, as preposições a e em têm valor temporal, o que justifica a aceitabilidade das construções (1) e (2). Ainda assim, é mais corrente o uso de (1), com a preposição a, que figura noutras expressões como «à tarde» e «à noite»:

(3) «À tarde/noite sente-se um alívio». 

Pergunta:

Os habitantes de Porto de Mós são "porto-mosenses" ou "portomosenses"?

Frequentemente surge a segunda forma mas já me deparei com a primeira. Agora estou na dúvida.

Obrigada. 

Resposta:

Em referência aos habitantes de Porto de Mós, a forma indiscutivelmente correta é porto-mosense, como regista o Portal da Língua Portuguesa. Este gentílico segue, portanto, o modelo de outros derivados de topónimos que contêm a preposição de, a qual se omite nos gentílicos: Ponte de Lima > ponte-limense; Ponte de Sor > ponte-sorense (cf. Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves)1.

Importa assinalar, no entanto, que ocorre também a grafia portomosense, como no jornal O Portomosense, a qual é reconhecida pelo dicionário Priberam. Embora portomosense não seja considerada a grafia mais correta, esta está enraizada regionalmente, o que, como acontece com outros topónimos e gentílicos, leva a aceitar-se como legítima.

 

1 É importante notar que os gentílicos e nomes pátrios derivados de topónimos compostos por nome e adjetivo (ou adjetivo e nome) são geralmente escritos com hífen, como em nova-iorquino, porto-riquenho, mato-grossense e serra-leonês, entre outros.

Pergunta:

Gostaria de saber se os sufixos -fóbico e -fóbo são intercambiáveis na língua portuguesa, especialmente no português de Portugal. A palavra homofóbico, por exemplo, é mais utilizada com o sufixo -fóbico, porém, a versão com o sufixo -fóbo, homofóbo, também está correta. Gostaria de saber se o mesmo se aplica a outras palavras como, por exemplo, xenófobo/xenofóbico.

Obrigada.

Resposta:

Os -fóbico -fóbo estão atestados no Dicionário Houaiss como elementos de composição1:

(1) -fóbico: «pospositivo, conexo com -fobia "horror a", ver, formador, pelo sufixo -ico, de adjetivos derivados dos substantivos relacionados com -fobia, sem exceção, pelo padrão seguinte (segundo o primeiro exemplo lá registrado): acarofobia:acarofóbico etc

(2) -fobo: «pospositivo, conexo com -fobia [...]; forma substantivos e adjetivos e ocorre já em vocábulos originais gregos como hidrófobo (hudrophóbos), já em numerosos cultismos de várias épocas da língua, segundo o padrão acarofobia:acarófobo etc.» 

Pelo exposto, entende-se que -fobo e -fóbico participam na formação de compostos morfológicos que configuram adjetivos sinónimos e, portanto, intercambiáveis. A diferença reside unicamente no facto de -fobo formar substantivos e adjetivos e -fóbico só formar adjetivos. Note-se, de resto, que os dicionários registam homófobo como substantivo e adjetivo e homofóbico, como adjetivo. Por essa razão, numa frase como «os homófobos rejeitam essa ideia», não é aconselhável a substituição pelas formas com -fóbico.  

Contudo, na perspetiva de Portugal, observa-se uma tendência variável no uso dos compostos -fobo e -fóbico. Por exemplo, ...

<b>Vacilar</b> na escrita televisiva
A importância da precisão ortográfica

Se é importante a precisão linguística na comunicação, a verdade é que isso nem sempre acontece. Partindo do exemplo de uma transmissão da RTP, em que o verbo vacilar foi incorretamente grafado como "vassilar", a consultora Sara Mourato refere neste texto a origem de uma confusão gráfica muito comum na língua portuguesa. 

Pergunta:

Qual é a forma correta? «Escrever no papel» ou «escrever sobre o papel»?

Resposta:

Não podemos considerar nenhumas das construções erradas, contudo, o seu significado pode divergir. Eis alguns exemplos ilustrativos:

(1) «A Joana escreve [o texto] no papel».

Em (1) a Joana está a escrever um texto diretamente no papel. Ou seja, o papel é o suporte escolhido para a escrita do texto.

(2) «a Joana escreve [o texto] sobre o papel»

Já o exemplo (2) admite duas interpretações. A primeira pode ser entendida como sinónima de (1), onde «sobre o papel» significa que o papel é usado como suporte físico para a escrita (sobre como sinónimo de «em cima»). A segunda interpretação sugere um significado completamente diferente: aqui, a Joana escreve um texto que trata do tema «papel», i.e, um texto acerca do papel.

Pode assim concluir-se que, se a intenção é referir-se ao suporte físico utilizado para a escrita, a forma mais precisa é «escrever no papel». Esta expressão elimina ambiguidades, ao focar o papel como meio físico para a escrita.