Pedro Mateus - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Pedro Mateus
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Pedro Mateus, licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses e Franceses, pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa; mestrado em Literaturas Românicas, na área de especialização Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea pela mesma Faculdade.

 
Textos publicados pelo autor

Seria possível classificar os textos em apreço como «coleções» ou «coletâneas», mas, o Decâmeron e o livro de John Le Carré constituem conjuntos de contos cuja sequência de fundo é garantida por eventuais personagens ou acontecimentos. Trata-se, afinal, de várias histórias, que acabam por, de alguma forma, e de acordo com a estratégia narrativa, estar ligadas entre si. Deste modo, chamar-lhes «coletâneas de contos» será talvez demasiado redutor.

De facto, a questão apresentada pelo consulente prende-se com aquilo a que, na área dos estudos literários, se chama «estratégia narrativa», definida, por exemplo, por Carlos Reis e Ana Cristina Macário Lopes, no Dicionário de Narratologia (Almedina, 1994, pp. 142-144), como «uma atitude ou conjunto de atitudes organizativas, prevendo determinadas operações, recorrendo a instrumentos adequados e opções táticas precisas, com  intuito de se atingir objetivos previamente estabelecidos [...]».

Neste sentido, o professor alemão Wolfgang Iser (O Ato da Leitura: uma teoria do efeito estético, São Paulo, 1996) explica que «As estratégias organizam simultaneamente o material do texto e as condições em que ele deve ser comunicado. [...] Elas envolvem a estrutura imanente do texto e os atos de compreensão desse modo suscitados no leitor».

Assim, falamos aqui de estratégias e de opções narrativas, e não propriamente de tipologias textuais, envolvendo eventualmente nomenclaturas próprias. Aliás, o tipo de estratégia narrativa enunciada pelo consulente encontra paralelo noutras artes, como por exemplo no cinema, onde um dos exemplos mais interessantes, do meu ponto de vista, talvez seja Magnólia (1999), do norte-americano Paul T...

Não encontro o vocábulo «descendencial» em nenhum dos instrumentos linguísticos oficiais consultados.

Julgo que as palavras mais adequadas ao contexto sugerido são genético ou hereditário «Aquele dom é genético/hereditário

Será, contudo, interessante notar que encontro a ocorrência da expressão «construção descendencial», por exemplo, numa decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (relativa à apelação cível n.º 7 002 5659 723, julgada em setembro de 2009):

«[...] A uma porque, não que seja a finalidade da família a construção descendencial, mas deve existir, pelo menos, em tese, a possibilidade [...]»,

assim como «ordem descendencial» num artigo do Diário de Justiça do Estado de Pernambuco, de 06/10/2009: «[...] Entretanto, no caso presente vemos que a ausência de sucessão na ordem descendencial permitiu a requerente habilitar-se como credora em razão da condição de tia legítima do falecido, estando esta inscrita na sucessão hereditária na linha colateral.»

De acordo com o E-Dicionário de Termos Literários, coordenado pelo prof. Carlos Ceia (consultado em 3 de novembro de 2013), a metonímia é, «em sentido lato, [...] a figura de linguagem por meio da qual se coloca uma palavra em lugar de outra cujo significado dá a entender. Ou a figura de estilo que consiste na substituição de um nome por outro em virtude de uma relação semântica extrínseca existente entre ambos. Ou, ainda, uma translação de sentido pela proximidade de ideias. Consiste, assim, na ampliação do âmbito de significação de uma palavra ou expressão, partindo de uma relação objetiva entre a significação própria e a figurada [...]».

Tendo em conta esta definição, de facto, no texto proposto pelo consulente, sim, relógio pode ser entendido como uma metonímia de «tempo», visto que não será de forma alguma despropositado considerar, depois de analisado o conteúdo do poema, assim como a mensagem que dele se pode retirar, que o nome relógio pode substituir o nome tempo, «em virtude de uma relação semântica extrínseca existente entre ambos».

Contudo, e na minha opinião, a figura de retórica que mais salta à vista neste poema será a personificação, já que o «relógio» (ser inanimado) assume, ao longo de todo o texto, qualidades, comportamentos, atitudes e impulsos humanos.

Introito:

«Era possível a qualquer apanhar com o palavrão na cara e ficar coberto de peste.»

Perdoem-me os mais sensíveis, mas não pude deixar de pensar neste excerto do conto «A palavra mágica», de Vergílio Ferreira.

Cronologia:

Neste caso, na verdade, estamos na presença de uma construção passiva = «[divulgam-se/são divulgados (por alguém)], na forma do anexo, os indicadores estratégicos».

Assim, e de forma genérica e até um pouco simplista, podemos dizer que, tal como bem explicitam, por exemplo, Telmo Móia e João Andrade Peres (Áreas Críticas da Língua Portuguesa, p. 236), nestes casos, o verbo concorda com o argumento interno, que se realiza numa frase ativa como um complemento direto (= «indicadores estratégicos»):

1) «Comprou-se [= foi comprado] um livro encadernado»;

2) «Compraram-se [= foram comprados] vários livros para a biblioteca.»

Aconselho vivamente, contudo, a leitura desta resposta, para um esclarecimento mais detalhado e técnico da questão aqui apresentada pela consulente.