Margarita Correia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Margarita Correia
Margarita Correia
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Margarita Correia, professora da Faculdade de Letras de Lisboa e investigadora do ILTEC-CELGA. Entre outras obras, publicou Os Dicionários Portugueses (Lisboa, Caminho, 2009) e, em coautoria, Inovação Lexical em Português (Lisboa, Colibri, 2005) e Neologia do Português (São Paulo, 2010). Mais informação aqui. Presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa desde 10 de maio de 2018.

 
Textos publicados pela autora

Antes de mais, muito obrigada pela sua questão.
Tal como a maioria das palavras, cáfila apresenta diversos significados, isto é, é uma palavra polissémica. De resto, o problema para quem faz dicionários é, frequentemente, poder dar conta de todos os significados que uma palavra pode adquirir, por processos semânticos diversos e em contextos diversos.

Por exemplo, o dicionário de António de Morais Silva, na sua 10.ª edição, dá conta dos seguintes significados da palavra cáfila:
– Porção de camelos;
– Por ext. Bando de gente ou de coisas;
– Corja;
– Caravana; comboio.

O próprio Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa apresenta quatro acepções distintas para a palavra cáfila:
1 grupo ou quantidade de camelos;
2 caravana de mercadores, em África ou na Ásia, transportada em camelos;
3 por ext. grupo ou multidão de coisas ou pessoas;
4 pej. bando de gente, especialmente de indivíduos ordinários ou maus; corja, súcia.

Como pode verificar, os significados apontados na sua pergunta estão também contemplados nos dicionários que consultei. O que acontece é que, provavelmente, o dicionário que consultou não contém a primeira acepção de cáfila, isto é, «porção de camelos», por qualquer razão que não posso explicar.

De resto, as suas observações não invalidam o teor da pergunta e da resposta, dado que o objectivo não era dar conta exaustivamente dos significados de cáfila<...

No artigo "A praga dos neologismos" (EXPRESSO / Única 26/7/03), preocupa-se Paulo Querido com a entrada e difusão de neologismos relacionados com a Internet. E tem razão em preocupar-se.

Agradeço a atenção que prestou ao meu artigo.

O que é preciso fazer para que a palavra árbitra passe a ser usada em vez de juíza ou senhora árbitro é, a meu ver, pura e simplesmente usá-la sistematicamente e exigir que os nossos interlocutores a usem.

Se vivêssemos num país com uma política de língua forte e com um organismo oficial responsável pelo processo de normalização linguística, teríamos de fazer pressão para que esse organismo adoptasse a forma feminina da palavra "árbitro" como norma. É o que acontece em regiões como o Quebeque, no Canadá, onde, por razões históricas e sociais, se adoptou, já nos anos 70, uma política de planificação linguística forte.

Como vivemos num país onde a normalização é feita pelo uso, não existindo qualquer organismo com essas funções, a solução é insistir no uso dessa forma, de modo a que as pessoas se habituem a ouvi-la e a utilizá-la.

Embora o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea não a considere explicitamente, a forma árbitra encontra-se já atestada na versão portuguesa do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, vol. 1, cuja publicação se encontra em curso. [Refiro estes dois dicionários, porque são aqueles que, de forma mais ou menos sistemática, nos fornecem informações sobre as formas flexionadas das palavras.]

Além disso, o corrector ortográfico do meu ...

O 25 de Abril no léxico português

O que mudou no léxico da língua portuguesa com o 25 de Abril de 1974 em Portugal – neste artigo da linguista Margarita Correia, assinalando o 29.º aniversário da "Revolução dos Cravos".

 

1. Quanto ao estilo da frase que cita, «Um dicionário normativo é aquele a quem foi legalmente atribuída capacidade legal para determinar...», tem toda a razão. O estilo é deplorável. “Mea culpa”.
2. Não é invenção minha o conceito de “dicionário normativo” apresentado no texto. O “Diccionari de la Llengua Catalana”, publicado em 1995, é um dicionário normativo exactamente nesse sentido.
Segundo a Lei de 24 de Abril de 1991 do Parlamento da Catalunha é reconhecido unanimemente que o Institut d’Estudis Catalans é «la institució encarregada d’establir i actualitzar la normativa lingüística del català» e que todas as instituições administrativas radicadas na Catalunha devem «respectar la normativa establerta per l’Institut d’Estudis Catalans».
Esta lei é referida logo no prólogo do citado dicionário e o estatuto normativo do mesmo é, de resto, bem explicitado nesse texto.
A referência bibliográfica da obra é a seguinte:
Institut d’Estudis Catalans (1995). “Diccionari de la Llengua Catalana”. 1 vol. Barcelona, Palma de Mallorca, València: Edicions 3 i 4, Edicons 62, Editorial Moll, Enciclopèdia catalana e Publicacions de l’Abadia de Monserrat.
Além disso, existe uma recensão do “Diccionari”, que eu própria escrevi, publicada na “Revista Internacional de Língua Portuguesa”, n.º 15, de Julho de 1996, pp. 189-193.
3. Tentei obter informações relativas à normativização noutras línguas. Verifiquei que a “Académie Française” não tem, de facto, esse estatuto legalmente conferido. Aguardo resposta de outras academias, designadamente a espanhola.
4. Tem razão quanto ao que afirma relativamente ao Dicionário Houaiss. "Mea culpa", também. Acabo de inserir a correcção no texto publicado.
Críticas do estilo das que faz são sempre estimulantes e obrigam-nos de facto a precisar conceitos e informação. Bem-haja pela sua crítica.
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