Pergunta:
Saudações, Sr. Silvas Filho,
Mando-lhe um e-mail porque creio que pode colaborar com minha reportagem. Trata de questões relativas ao acordo ortográfico. Por favor, responda (é-nos importante ter a visão de alguém de Portugal).
1 — Parece haver uma confusão, pelo menos da parte da discussão brasileira, entre as noções de acordo ortográfico e de mudança ortográfica, como se apenas um país estivesse alterando a ortografia. Há falta de esclarecimento na proposta do acordo? Porquê? Essa questão foi levantada em Portugal?
2 — Pode considerar um pouco os argumentos pró-acordo (fortalecimento do português como língua internacional, abertura do mercado editorial, criação de uma unidade mais forte entre os signatários do acordo, etc.) e antiacordo (obsolescência súbita de livros, conseqüências nas pronúncias ao longo prazo, condição desleal de concorrência editorial, pasteurização da escrita, etc.).
3 — Fala-se muito em sentido político-econômico (ou politicoeconómico...) do acordo, pelo que li em muitos sites de Portugal, principalmente como um favorecimento ao Brasil. Como vê essa questão?
4 — Li um texto de José Eduardo Agualusa, às vezes parece que nas discussões acadêmicas se esquece os países africanos. Como vê isso?
5 — Tem mais alguma consideração a fazer?
Agradeço desde já.
Resposta:
Respondo ponto por ponto às suas questões:
1 — São apresentados como argumentos pró-acordo em Portugal: o facto de podermos passar a ter um dicionário comum, um só texto nas instâncias internacionais, todas as variantes serem legais no universo da língua e, sem dúvida, o reforço da língua portuguesa no mundo. A unidade não impede que haja termos preferenciais nas diversas comunidades linguísticas. Sobretudo defende-se que uma mudança ortográfica não é uma mudança na língua.
2 — Os argumentos contra, além dos etimológicos na queda das consoantes mudas, são as duplas grafias que afinal diminuem a unidade, podendo trazer confusão. Há efectivamente também as objecções económicas; mas a verdade é que, sempre que a língua muda, surgem problemas económicos: as pequenas alterações às normas vigentes, como a queda dos acentos nas palavras derivadas, feita na década de setenta do século passado, obrigou a mudanças dos manuais, dos dicionários, etc.
3 — Em Portugal não me canso de mostrar que no acordo houve cedências de parte a parte. Este argumento era importante em Portugal, visto as consoantes mudas serem de utilização frequente na nossa grafia. Esta objecção, contudo, esbateu-se com o tempo.
4 — De facto, na elaboração do Vocabulário Comum previsto no Preâmbulo do acordo de 1990, é necessário que sejam ouvidos todos os países com língua oficial portuguesa, para introdução de termos específicos indispensáveis. Sublinho, no entanto, que o novo acordo, oficializando o