D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Eu quero saber o porquê da utilização de um acento gráfico nos vocábulos: páginas, traído e alguém.

Obrigada.

Resposta:

Necessidade de acentos nos vocábulos:

Páginas

Trata-se duma palavra esdrúxula. Todas são acentuadas (página, substantivo, é diferente de pagina, forma do verbo paginar).

Traído

É necessário o acento para desfazer o ditongo decrescente ai e converter o grupo vocálico num hiato ¦a-í¦ (outro exemplo: saía, diferente de saia).

Alguém

É necessário o acento por se tratar duma palavra aguda com terminação em (outro exemplo: além, advérbio, diferente de alem, forma do verbo alar).

Diferenças neste texto para o novo acordo:

Sem alteração para Portugal e para o Brasil.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Em primeiro lugar gostaria de felicitar todo o trabalho associado a este site, de enorme utilidade.

Gostaria de saber o que é correcto (e porquê) neste caso e noutros verbos similares:

«João emigrou para Marrocos aos 19 anos, tendo-se convertido ao Islamismo aos 23.»

«João emigrou para Marrocos aos 19 anos, tendo se convertido ao Islamismo aos 23.»

Resposta:

Tradicionalmente, em Portugal, condena-se o gerúndio com função conjuncional. Na frase em apreço, «João emigrou para Marrocos aos 19 anos, tendo-se convertido ao islamismo aos 23», a locução verbal «tendo-se convertido» pode substituir-se mais correctamente por: «e converteu-se». Se a sua dúvida é haver ou não hífen, a próclise neste caso não é habitual em Portugal.

Note, porém, que a forma composta do gerúndio, com valor adverbial, é perfeitamente legítima quando exprime uma acção anterior. Por exemplo, já seria correcto escrever: «Tendo emigrado para Marrocos aos 19 anos, o João converteu-se ao islamismo aos 23.»

Há mesmo autores que defendem a aceitação do gerúndio simples antecedido, nalguns destes casos, de acção anterior: «Ligando o projector, o apresentador começou logo a falar.»

Finalmente, já lá vai o tempo do horror à tendorreia (abuso do gerúndio). Lá porque nós dizemos «estou a cantar», e os irmãos brasileiros dizerem «estou cantando», isso não pode ser considerado um erro, pois o uso do gerúndio ainda é dialectal em muitas regiões de Portugal. Aliás, quando nos perguntam como estamos de saúde, ninguém responde «vou a andar», mas o profundamente simbólico «vou andando» (enquanto se «vem andando», já não é mau, o problema é quando se cai à cama…).

Apreciemos as ricas variantes da nossa língua, muitas delas que os nossos corajosos ancestrais "foram deixando", por onde passaram.

Diferenças neste texto para o novo acordo
Termos para Portugal: corretamente, correto, projetor, dialetal, ação.
Para o Brasil: Sem alteração.

NOTA: as duplas grafias não implicam alterações obrigatórias na escrita.

Pergunta:

Durante a fase de transição, quando é que um professor/corrector de provas (v. g. exame nacional) deve assinalar erro e penalizar o aluno/examinando em palavras com biortografia?

 

Resposta:

A entidade que elabora as provas para os exames nacionais deverá indicar qual a política estabelecida para as correcções dos erros ortográficos.

Ciberdúvidas não tem autoridade oficial para estabelecer regras na língua. Sente-se a necessidade urgente duma entidade que pontifique oficialmente na orientação e protecção do património linguístico. Ciberdúvidas unicamente se recorre do bom senso.

Ora, enquanto a norma de 1990 não estiver oficialmente em vigor, a grafia correcta é em Portugal a de 1945, com as respectivas pequenas alterações posteriores. Não se aconselham misturas de grafias diferentes, senão ninguém se entende.

Ressalvam-se os casos didácticos de experiências com a ortografia do novo acordo (então claramente referida logo no início dos textos, para evitar confundir os leitores). Para mim, porém, o ideal é o que faço em Ciberdúvidas: escrever sempre na norma em vigor e assinalar em separado as diferenças para a outra ortografia.

Nos casos em que há preparação dos alunos para a nova ortografia, compreende-se que depois surjam trocas na escrita dos alunos. Nesse caso, repito a recomendação que já dei atrás noutra resposta de Ciberdúvidas. Os erros ortográficos podem, na generalidade, ser assinalados a vermelho, e as grafias incorrectas no acordo em vigor (e que continuam ainda a ser erros ortográficos), mas correctas no novo acordo, podem ser assinaladas com outra cor (sugestão: roxo).

Aproveito para chamar desde já a atenção dos leitores portugueses de Ciberdúvidas para o problema que pode surgir em Portugal se forem cedo de mais adoptados correctores ortográficos informáticos com base no novo acordo, sem o devido esclarecimento. Como o Brasil vai ter o seu Vocabulário

Pergunta:

Gostaria de esclarecer uma dúvida: o termo "anoxia" escreve-se com acento, ou sem acento?

Resposta:

Tanto pode escrever com acento como sem ele. Depende do uso na respectiva comunidade.

O termo original é anóxia (ausência de oxigénio), de an- (prefixo negativo) mais -óxia (pospositivo de oxigénio).

Anoxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso.

Diferenças neste texto para o novo acordo

Termos para Portugal: respetiva

Para o Brasil: Sem alteração

NOTA: as duplas grafias não implicam alterações obrigatórias na escrita.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Sagui — perde o trema e cai noutra. Ao pronunciá-la agora silabando-a, teremos "sa-gu-í"? Então deveria ser acentuado o i no hiato em que aparece tônico, sozinho?

Obrigada, se me sanar tais dúvidas.

Resposta:

Para esclarecer bem o meu raciocínio, tomo a liberdade de lembrar:

a) A sequência vocálica ui, sem acento gráfico, é normalmente um ditongo decrescente (ex.: tafuis, uivar, Base VII).

b) Um acento converte este ditongo num hiato (ex.: influíste, juízes, Base X).

c) As sequências gui e qui são indissociáveis na translineação, quer o u se pronuncie ou não (Base XX), por haver tendência para serem pronunciadas numa só emissão de voz (u átono nestas sucessões é uma semivogal, e ui é um ditongo crescente [wi], ex.: lingüista no Brasil, linguista em Portugal, vendo-se que a eliminação do trema não altera a fonia do conjunto gráfico).

d) Os ditongos crescentes são instáveis, e, em fala lenta, podem ser pronunciados como hiatos (ex.: fêmeas ¦me-as¦, espécies ¦ci-es¦). Esta é a razão por que muitos linguistas recusam a existência de ditongos crescentes. No entanto, como, por exemplo, em água não é legítima a separação (nem em águas), segundo a Base XX, outros linguistas afirmam que este facto atesta a existência dos ditongos crescentes, aliás confirmada na Base XI do novo acordo.

Então, de acordo com c), é já em Portugal, e continuará a ser no novo acordo, sagui [gwí] (nome de macaco, plural, saguis). Segundo d), para que