D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Meu questionamento é sobre como serão elencadas as palavras que perderão as consoantes mudas no caso de haver diferenças entre Portugal e Brasil.

Vi uma nota na pergunta: Novo acordo, marcação de erros ortográficos afirmando que no novo acordo se escreveria respetivas.

Contudo respectivas em PB não possui c mudo.

Em outras respostas do Ciberdúvidas também percebi consoantes que não são mudas no Brasil sumindo.

Em PE, o c não é pronunciado em respectivas?

Ponho-me a pensar onde mais teríamos consoantes mudas em PE e não em PB. Ex.: Obsoleto, perspectiva, etc.

 

Resposta:

Podem verificar-se três situações:

a) A consoante é pronunciada em Portugal e no Brasil.
b) A consoante é invariavelmente muda.
c) A consoante é pronunciada só num dos países.

A solução encontrada no novo acordo foi a seguinte:

a) A consoante mantém-se (ex.: pacto).

b) A consoante suprime-se sempre (ex.: respetivas)

c) O novo acordo aceita a dupla grafia, considerando que qualquer uma delas é legítima no universo da língua.

Pode-se aconselhar a mais recomendada para uma determinada comunidade linguística, mas não se pode recusar a alternativa como errada. Exemplo: é recomendável a palavra facto, em Portugal, para o conceito: «o que aconteceu efectivamente, verdade», porque fato, neste país, significa o vosso terno: «casaco e calça do mesmo tecido». No entanto, se um aluno brasileiro escrever em Portugal fato para o mesmo conceito de facto num dado contexto, a palavra não se pode considerar errada em Portugal, segundo o novo acordo.

Idem para o Brasil, por exemplo, em conceção, no Brasil concepção. De onde se tira a seguinte conclusão: se a grafia concepção é legítima no universo da língua, ninguém me pode proibir de a escrever em Portugal como já a escrevia antes do novo acordo.

Em resumo, é perfeitamente possível, numa publicação com vários autores, as palavras de dupla grafia autorizada aparecerem diferentemente grafadas de autor para autor. Este problema tem sido motivo para sérias censuras ao novo acordo, mas é preciso lembrar que isso já acontecia nas múltip...

Pergunta:

O nome "Ataulfo" escreve-se sem acento, ou "Ataúlfo" (com acento)?

Resposta:

Segundo a Obs. 1.ª da alínea 4.ª da Base XII das normas ortográficas brasileiras e a Base XIV das portuguesas, prescinde-se do acento agudo na vogal tónica u, quando precedida de vogal com que não forma ditongo, se é seguida de l (ex.: Raul, paul).

Logo, deve escrever Ataulfo, sem acento.

Diferenças neste texto para o novo acordo

Sem alteração para Portugal e para o Brasil.

Ao seu dispor,

 

Pergunta:

Gostaria de saber como devemos classificar a palavra alcançou quanto à acentuação.

Resposta:

Nos casos em que o encontro vocálico “ou” já se monotongou em [o], como é frequente, a resposta é óbvia, pois as palavras com estas terminações verbais são palavras agudas (ex.: falou, andou, parou, etc.).

Mas a Sra. Professora não terá encarado o problema com esta simplicidade. Sem o ter mencionado na pergunta, certamente estava a pensar na pronúncia do encontro “ou” considerando o ditongo decrescente [ow] (dialectal em Portugal). Ora, mesmo neste caso, o acento tónico recai na última sílaba, como é habitual nas palavras que terminam em ditongos decrescentes, sem qualquer acento gráfico (ex.: atrai, lacrau, darei, comeu, inquiriu, influi, etc.).

Diferenças neste texto para o novo acordo

Termos para Portugal: dialetal.

Para o Brasil: frequente.

NOTA: as duplas grafias não implicam alterações obrigatórias na escrita.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Por que falamos em fotos três por quatro e escrevemos 3 × 4? Não seria 3 : 4 o correto?

Grata.

Resposta:

Claro que é sempre legítimo representar um conceito qualquer por um símbolo convencional para o qual haja o acordo duma dada comunidade. No entanto, os símbolos baseiam-se frequentemente em princípios lógicos. Ora uma foto constituída por um rectângulo de três por quatro unidades de comprimento tem por área 3 × 4 unidades de área. Assim, o símbolo da multiplicação parece mais lógico neste caso.

Diferenças neste texto para o novo acordo

Termos para Portugal: retângulo.

Para o Brasil: frequentemente

NOTA: as duplas grafias não implicam alterações obrigatórias na escrita.

Ao seu dispor,

 

Cf. «Tirar uma fotografia» é erro?)

Pergunta:

Gostaria de saber o motivo que levou a insigne Clarice Lispector a acentuar Macabéa no livro A Hora da Estrela. Procurei na gramática e não encontrei, pois somente versa sobre os ditongos abertos "éi", "éu" e "ói".

Aguardo ansiosamente suas abalizadas explicações.

Resposta:

A terminação ea é normalmente átona nas palavras portuguesas (sem acento gráfico). Cito: rosácea, côdea, álea, fêmea, alínea, área, náusea, láctea, e forma um grupo vocálico postónico por muitos considerado um ditongo crescente. Sem acentos gráficos anteriores, a tónica recai no grupo vocálico ea, dispensando qualquer acento gráfico em Portugal (sem acento, fêmea pronunciar-se-ia ¦femêa¦ ou ¦feméa¦); o acento agudo terá servido no Brasil para indicar que o timbre é aberto em Macabéa.

Rebelo Gonçalves referiu, em Andreia, que são inexactas as grafias Andrea e Andréa. Por semelhança, eu escreveria Macabeia. Sem acento em Portugal e também para o Brasil no novo acordo.

Lembro, porém, que as normas aceitam que cada um escreva o seu nome de acordo com a forma como esteja oficialmente registado.

Macabéa é efectivamente a personagem de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (1925-1977), romance publicado em 1977. Nesta referência, a palavra está consagrada com esta grafia. Se as instituições oficiais brasileiras aceitam o registo deste nome, exactamente assim grafado, o acento é agora legítimo no Brasil. Pode ser que seja anulado no novo acordo, como vai acontecer, por exemplo, na palavra ideia.

Diferenças neste texto para o novo acordo

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