D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Quanta dúvida ainda com a Reforma!

Afinal, re é ou não considerado prefixo? Se o é, vai entrar na nova regra do hífen: «termina com vogal diante de palavra com vogal igual, então se separa»?

Fica "re-escrever", "re-enviar"?

Resposta:

A sequência re- pode ser um prefixo. Então, aparece normalmente aglutinado ao elemento seguinte. Assim, tem sido e será no novo acordo: reelegível, reembolsar, reencarcerar, etc. Logo, no novo acordo será: reenviar.

Como nem sempre foram muito claros nas suas indicações, os legisladores do acordo de 1990 obrigam-nos a ler todo o texto para compreender bem o espírito das normas.

A regra b) do 1.º da Base XVI a que faz referência é completada com o texto introdutório do 1.º, que indica quais os prefixos e falsos prefixos considerados. Ora, não está mencionado o prefixo re- na lista.

A regra é, por exemplo, aplicada a micro-onda (podia, antes de 1990, ser microonda, conforme se observa em dicionários portugueses e no Aurélio de 1994).

Termos para Portugal: sem alteração.

Para o Brasil: sequência.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Desculpe voltar a acender a questão da virtualidade. Apesar de sempre ter ligado a palavra virtuosidade a «virtuoso, o que tem virtudes», essa sua definição também me parece correcta, pelo que fiquei bastante confuso, e apesar de pesquisar pela Internet já há pouco mais de meia hora, não chego a nenhuma conclusão... Como poderei então designar a qualidade de quem tem virtudes?

Obrigado pela sua atenção.

Resposta:

Virtuosidade

A qualidade de virtuoso em dicionários mais antigos vem designada por virtuosidade, de facto. No entanto, a definição de virtuoso é a de quem possui ou nutre sentimentos de virtude, é casto, honesto, valoroso, eficaz.

Não era essa a minha ideia na observação que fiz sobre a língua, mas frisar as suas potencialidades.

Por outro lado, como pode verificar, os modernos dicionários dão a virtuosidade o sentido de virtuosismo, qualidade de virtuoso, de quem tem grande talento de execução.

O problema que aqui se levanta não é propriamente de haver erro grosseiro semântico na troca indevida de virtualidade (com o sentido de potencialidade) por virtuosidade. A virtuosismo de um artista é uma potencialidade que ele tem. O erro está na deficiente propriedade de aplicação da palavra.

Por exemplo, podemos dizer *«o chefe da banda», *«o chefe da orquestra sinfónica», e toda a gente nos entende; mas, com propriedade, o que devemos dizer é «o mestre da banda», o «maestro da orquestra sinfónica», e, nestas combinatórias, não é "próprio" fazer transferências (ex.: trocar maestro por mestre).

A propriedade no uso das palavras é uma das qualidades da língua; questão muito importante, frequentemente descurada.

Só se consegue dominar bem esta qualidade com muita leitura. Quando as palavras entraram em abundância nas nossas ligações cerebrais (e afluem em catadupa quando, por exemplo, lemos um livro) elas ficam por lá nos recônditos da memória, e depois, quando falamos ou escrevemos, sentimos que umas ficam melhores que outras p...

Pergunta:

Gostaria de entender porque os portugueses estão tão incomodados com o acordo ortográfico da língua portuguesa. Nós aqui no Brasil também iremos alterar a ortografia de algumas palavras (menos que os portugueses, é verdade), mas, ao contrário dos portugueses, aceitamos tais alterações como uma evolução e simplificação da língua escrita. No passado também usávamos consoantes mudas nas palavras (acção, actual, etc.) e não tivemos qualquer problema em retirá-las. Talvez por sermos um país de imigrantes nos seja mais fácil aceitar inovações e novas influências do que Portugal.

Resposta:

O incómodo de Portugal com o novo acordo justifica-se por vários motivos:

1 — De facto há mudanças significativas na grafia do português europeu (refere-se cerca de 1,6% de alterações). A verdade é que se toma o conjunto do corpus lexical e não a frequência num discurso corrente, no qual o número de palavras alteradas fica sem grande significado em relação ao das mais frequentemente usadas no português fundamental.

2 — Há o receio, com fundamento, de que as duplas grafias introduzam uma grande arbitrariedade na escrita. Não se considera, porém, que estas serão só as indispensáveis, oficializadas em princípio num vocabulário de referência (ex.: o VOLP brasileiro a ser publicado já em Novembro). Além disso, haverá grafias recomendadas para as comunidades linguísticas respectivas (embora as variantes deixem de ser erros ortográficos, como eram até aqui).

3 — Em Portugal perde-se alguma etimologia na queda das consoantes mudas, o que entristece as pessoas que estimam a história das palavras. O sentimento é legítimo, mas esquece-se que muitas consoantes já caíram ou mudaram na evolução da língua com o tempo, sem que isso tenha trazido grande mal.

4 — Há o receio das pessoas de que depois não saibam escrever e de que haja grandes prejuízos económicos nas actualizações das obras. Em primeiro lugar, repare-se que as alterações são fáceis de fixar; e, depois, lembre-se que, em todas as alterações na língua, foi `sempre´ necessário imprimir novas obras. Este último argumento contra a mudança, se estivesse `sempre´ presente, implicaria que nunca se poderia alterar a ortografia…

Diferenças neste texto para o novo acordo

Termos para Portugal: respet...

Contributo do nosso consultor D´Silvas Filho na controvérsia – antiga – sobre a pluralização, ou não, do numeral milhar, pondo em destaque o que indica Rodrigo de Sá Nogueira, no seu Dicionário de Erros e Problemas da Linguagem (Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1974): «dezenas de milhares» e não *«dezenas de milhar». Sobre esta querela, cf. outras perspetivas assinaladas nos Textos Relacionado.

 

O Brasil vai publicar, em Novembro deste ano, um novo vocabulário, por eles designado Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), edição da sua Academia Brasileira de Letras (ABL). Estará adaptado ao novo Acordo e terá 370 000 entradas.