D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Como devo redigir este excerto de acta?

1 – Com vírgula (conforme o exemplo)?

2 – Sem vírgula?

«Foi feito o levantamento das acções de formação para o biénio dois mil e nove, dois mil e onze.»

Resposta:

Como a sra. professora sabe, a vírgula separa numa enumeração os elementos somados. Quando nela “não” se conclui com a aditiva e, deixa-se a hipótese de haver mais elementos possíveis na enumeração (ex.: «na gaveta estão lápis, cadernos, livros»).

Começando-se por caracterizar o número de elementos do conjunto (ex.: «o casal tradicional: marido, mulher») não é necessária a aditiva e. No entanto, a verdade é que as redundâncias condenadas por alguns puristas não escandalizam o senso comum [ex.: «o casal hétero tradicional: marido e mulher» (duas redundâncias)] pois  servem de realce (são expletivas ou enfáticas).

Em resumo, no caso em apreço, eu escreveria «… para o biénio dois mil e nove, e dois mil e onze.» Ou seja, porque as aditivas somam elementos diferentes (numerais e anos), eu acrescentaria uma vírgula depois da palavra nove.

NOTA FINAL

Depois de publicada esta resposta, os meus colegas de Ciberdúvidas, que gentil e rigorosamente fazem a revisão dos textos, lembraram-me que se poderia usar o hífen para agrupar o biénio num encadeamento vocabular. Sugeriram: «biénio dois mil e nove - dois mil e onze».

Não me tinha lembrado da solução, senão teria proposto na resposta a representação por algarismos. Mas, então, deveria propor «biénio 2009-2010» (subentendendo-se anos completos: do início de 2009 ao fim de 2010).

Houve em toda esta questão um equívoco. A diferença entre 2009 e 2011 é efe{#c|}tivamente dois; ora nós não estamos a comparar números, mas a fazer uma avaliação de tempo.

Assim, podemos falar da distância Lisboa-Porto (considerando que estamos a tomar o limite final da zona da cidade de Lisboa e o limite inicial...

Pergunta:

Existe a palavra "dozestavado" para definir um objecto de doze lados, como se diz "sextavado" para um de seis lados? Se não, como se diz?

Muito obrigado pelo esclarecimento.

Resposta:

Na palavra sextavado figura o antepositivo latino sex-, «seis», mais o termo verbal –avado de –avar (terminação de verbos regulares).

Então, como o antepositivo latino que significa «doze» é duodec-, podemos arbitrar a palavra duodecavado para falar dum polígono com doze lados.

No entanto, não recomendo o uso desta palavra, pois não a encontrei na documentação que possuo.

NOTA FINAL

Alguns escritores de antanho andavam em busca de termos regionais ou esotéricos para mostrar erudição. Ora, não é esse o meu critério. O pensamento literário pode ter valor na mensagem, mesmo sem recurso a um vocabulário muito amplo, desde que empregado correctamente e com perfeita propriedade.

Além disso, amplia-se o número de destinatários quando se evitam palavras que corram o risco de não serem entendidas; demais a mais quando não se encontram ainda estabilizadas no léxico.

Recomendo que escreva simplesmente: «com doze lados».

Ao seu dispor,

Pergunta:

Vamos ter dois dias consecutivos de actividades no âmbito de Língua Portuguesa. Podemos dizer "díudo/diúdo" da Língua Portuguesa?

Resposta:

1. Questões ortográficas

Não tem sentido o termo *díudo, pois iu é o ditongo decrescente [iw] (ex.: fugiu, partiu, etc.), e, como a palavra termina em o, seria sempre grave. Poderia escrever-se *diúdo, com o acento a converter a semivogal [w] na vogal tónica [u], mas este termo não está dicionarizado.

O que está dicionarizado são os termos díodo e diodo. Agora com pronúncia semelhante à anterior, os acentos estão trocados, porque em díodo estamos em presença duma esdrúxula, com acento obrigatório; e em diodo, duma grave que não o tem.

2 Questões semânticas

Não me parece bem aplicar os termos equivalentes díodo ou diodo (este o menos usual) para o sentido que pretende. Díodo é um termo específico da electrónica (uma válvula semicondutora). Significa que tem dois eléctrodos.

Para o sentido que pretende, apetece inventar um termo como bidiurno, mas não o recomendo. Sugiro que escreva mesmo «em dois dias consecutivos».

Peço que leia a minha nota final na resposta «Doze lados». Acrescento:

Como sabe, o signo linguístico, se arbitrário e variável com o tempo, não é completamente livre: tem de ter o mesmo conceito e ser bem conhecido na comunidade linguística onde é usado, para que os falantes se entendam.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Gostaria de saber se no novo acordo ortográfico a palavra tão-somente perderá o hífen.

Obrigada.

Resposta:

Tão pode aparecer em fim de palavra (-tão, com -ão aumentativo, como em portão), mas não figura entre os prefixos mencionados na Base XVI do novo AO.

Em tão-somente, tão é um advérbio, que significa «em tal grau», «em tal maneira». Assim, as regras do hífen são as da Base XV no novo AO.

Penso que tão-somente continuará a ser grafado como até aqui, porque também não me parece que tenha perdido a noção de composição [dois advérbios com sentidos diferentes («em tal grau»-«só») formando um sentido único («não mais que»)].

Sublinho, porém, que, segundo o Houaiss, já se escreveu tamsomente e tãosómènte

A sua Academia Brasileira de Letras publicará um vocabulário actualizado para o novo AO em Fevereiro. Aguarde certezas por esta via idónea.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Vejo comentários nesta página (não gosto de site ou sítio, pois não descrevem a realidade, vez que o se busca não é a localização lógica do servidor da página, mas sim do conteúdo, ou seja, a página) acerca do acordo ortográfico celebrado entre o Brasil e Portugal e espanto-me (vou utilizar a norma aqui, embora normalmente eu jamais falaria utilizando a ênclise) com o tom raivoso dos portugueses. Primeiro, porque a repercussão desse acordo aqui no Brasil foi mínima, ou seja, os brasileiros não deram por ela. Segundo, eu pergunto e se em vez de o acordo cortar os "c" e os "p" inúteis das palavras o Brasil passasse a escrever dessa forma haveria tanta gritaria em Portugal? Acho que não!

Eu acho que a questão para tanto barulho por algo que não tem som não tem origem na língua, mas sim no fato de Portugal estar sentindo-se colonizado pela colônia. Nós poderíamos chamar esse sentimento de complexo de metrópole.

Será que é isto que está "a ocorrer" (como vocês podem ver, eu posso escrever utilizando formas portuguesas sem maiores problemas. E os portugueses podem fazer o mesmo?)?

Coloco as duas questões para apreciação, embora reconheça que não são sobre a língua, mas sim sobre geopolítica.

Resposta:

Vou responder ponto por ponto às suas questões.

1 — Compreende-se que os brasileiros não gostem da designação sítio para substituir o inglês site, pois no Brasil está muito generalizado o sentido de fazenda pequena. Note que página tem também o inconveniente de poder ser metonimicamente um singular a representar um plural.

Em Portugal, está dicionarizada a designação sítio, na Internet; mas é muito frequente a pronúncia ¦saite¦ (neste caso recomenda-se a escrita com aspas altas ou itálico). Pode ser que acabe por se cristalizar (e é a minha proposta) uma grafia que siga o critério fonético: “saite”, como aconteceu com o futebol (de "football"), que já não escandaliza ninguém.

2 — Não há tons raivosos contra o Brasil nos oponentes do acordo em Portugal; mas simplesmente o desejo de conservar a história das palavras. As grafias com as consoantes mudas obedecem à etimologia e são defendidas por alguns, na ideia de que ajudam na pronúncia portuguesa da vogal anterior, como em acção (defesa, porém, que já não é válida em accionar…).

Note que a simplificação brasileira pode ser também manifestamente excessiva em Portugal. Nós não podemos usar o vosso fato para substituir o nosso facto, porque a grafia fato tem para nós o sentido que tem terno no Brasil.

3 — Não há nada a ideia de estarmos a ser colonizados pelo Brasil. Temos simplesmente orgulho numa língua que espalhámos pelo mundo e de que nos sentimos obreiros originais. As pessoas que são a favor do acordo, como eu, reconhecem o enorme empenho, em competências e investimento, que o Brasil está a fazer pela sua líng...