D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Têm vindo a ser frequentes, na imprensa falada e escrita, expressões do tipo «... foram gastos dois vírgula cinco milhões de euros». Pergunto se não estaria mais correto dizer «dois milhões e quinhentos mil euros». Ou será que posso dizer «o casaco custou-me cinquenta vírgula três euros»? Ou «eu tenho sessenta vírgula cinco anos»?

Resposta:

Tem toda a razão. Não se pode considerar errado, mas não é habitual referir a vírgula numa representação por extenso dum numeral.

O Sistema Internacional de Unidades (SI) impõe que, quando a unidade está expressa simbolicamente, é obrigatório que a grandeza esteja em algarismos (ex.: 2,5 x 106 €).

Quando a unidade é expressa por extenso, é conveniente que a grandeza também o venha; mas a regra não é taxativa. Assim, posso escrever «dois milhões e meio de euros» ou «2,5 milhões de euros». No caso presente, também poderia escrever, como sugere, mais correctamente: «dois milhões e quinhentos mil euros». Escreveria também: «o casaco custou cinquenta euros e trinta cêntimos» ou «tenho sessenta anos e meio». 

Ao seu dispor,

Pergunta:

Encontrei num manual de Português que não se abrevia Senhor ou Senhora na saudação inicial de uma carta e no endereço. Só se utilizam as abreviaturas Sr./Sra. seguidas do nome próprio. Gostaria de saber se esta informação está correcta, porque, em outros manuais, em exemplos de fórmulas de saudação inicial, esta regra não é respeitada.

Assim, na saudação de uma carta devo escrever:

«Exmo. Sr. João», ou «Exmo. Senhor João»?

Outra dúvida: uma carta de reclamação deve ser escrita na 1.ª pessoa ou
na 3.ª pessoa? É que já encontrei exemplos de cartas de reclamação escritas na 1.ª e outras na 3.ª

Muito obrigada!

Resposta:

Independentemente daquilo que aparece registado nas várias opiniões sobre a língua, devemos escolher sempre a solução que nos parece mais sensata.

Ora as abreviaturas existem justamente para nos permitir reduzir a representação das palavras, sem que isso signifique desprimor para a pessoa a que se destinam. Só o que se exige é que, referidas a pessoas, sejam escritas com inicial maiúscula e obedeçam a certas regras.

Por exemplo, as abreviaturas de senhor, títulos profissionais, etc. não devem grafar-se isoladamente do nome a que se referem (ex.: “Sr. Eng. Castro”). Nos títulos ou no texto, se grafadas isoladamente, estas designações devem escrever-se por extenso (ex.: «digo ao senhor que», «peço ao Sr. engenheiro para».

Há, porém, casos em que a praxe recomenda que, mesmo acompanhadas do nome, a escrita se faça por extenso. Cito o caso de Professor, para «professor universitário», distinguindo de Prof., abreviatura geral de um docente (em exercício ou diplomado para exercer o magistério), ou o caso de Doutor, para quem tem o grau académico de doutor. O mesmo se diz quando a etiqueta impõe que a escrita seja toda por extenso, em casos especiais da entidade a quem se dirige a carta, o que convém averiguar sempre.

Ao seu dispor,

Pergunta:

O aportuguesamento do nome do famoso reformador protestante suíçoseria "Úlrico", ou "Ulrico"?

Caso esta resposta já tenha sido dada, perdão! Mas o fato é que ela não aparece no motor de busca.

Gratíssimo.

Resposta:

Rebelo Gonçalves regista o antropónimo Ulrico, palavra grave, e não *Úlrico.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Registei a minha filha com o nome de Anaísa, e no registo não me queriam deixar registar com esse nome mas sim "Anaisa". Eu acho que Anaísa sem acento não tem muito jeito nem lógica, mas era o que eles tinham nos livros deles.

Obrigado pela atenção dispensada.

Resposta:

O «Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa», de José Pedro Machado, efectivamente regista Anaisa, com ditongo (sem acento). Parece ser esta a grafia tradicional.

Este dicionário acrescenta, porém, que Anaisa será uma variante de Naísa, esta com hiato (e acento). Por isso, não me admiraria que na tradição do lugar se tenha usado Anaísa. Aliás, na entrada Naísa deste dicionário indica-se que Anaísa é a variante de Naísa.

Assim, num silogismo óbvio, se Anaisa tem como variante Naísa é se esta é uma variante de Anaísa, então Anaísa é equivalente a Anaisa.

Resumindo, se considerarmos o dicionário acima uma referência, então é perfeitamente aceitável que a sua filhinha tenha o nome de Anaísa.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Gostaria de saber se há regras para confecção de siglas na língua portuguesa. Se existem regras, quais seriam? Siglas podem ir para o plural? Exemplo: na fisioterapia usamos a expressão «Atividade de vida diária», que é abreviada como AVD; se eu usar, para «Atividades de vida diária», AVD, não colocando a sigla no plural, está certo ou errado?

Preposições entram na confecção de siglas? Exemplo: usamos em fisioterapia  «Arco de movimento» muitos abreviam como ADM. Está certo ou deveria ser AM? No caso de partido político — Partido dos Trabalhadores — usamos PT e não PDT, não incluindo ai o 'somatório' de + os. Daí minha dúvida.

Siglas são sempre com letras maiúsculas? Exemplo: é em relação aos conselhos regionais de fisioterapia e terapia ocupacional — chamamos de CREFITO mas alguns usam Crefito, pela língua portuguesa qual é o certo? E vai para o plural, como CREFITOS?

Espero não explorar os colegas com minhas dúvidas mas gosto das coisas corretas dentro de nossa língua.

Grato e no aguardo,

Resposta:

Em Ciberdúvidas este assunto já foi várias vezes tratado, e por mais que um consultor. Acontece, porém, que aparecem sempre questões novas. Dada a consideração que o Sr. Professor nos merece, respondo-lhe integralmente, sem invocar respostas anteriores.

Em Portugal, as siglas são normalmente formadas pela junção das primeiras letras das palavras iniciais de uma designação, não incluindo normalmente artigos, palavras inflexivas, etc. A regra não é, porém, taxativa.

Na classificação das siglas, sigo as indicações da sua ilustre Academia Brasileira de Letras:

Distinguem-se:

Siglóides, como AVD, PT, CPLP, etc., formados só por letra maiúscula e soletradas letra a letra.

Siglemas, siglas que formam palavras, como CREFITO. Este tipo de siglas são por muitos designadas acrónimos.

`Nem os siglóides nem as siglemas escritas todas em maiúsculas se pluralizam nas terminações, mas com o determinante (ex.: «os CREFITO»).

Sem consenso, pessoalmente distingo nas siglemas os acrónimos, que para mim são conjuntos de letras que já entraram no léxico como palavras, obedecem à índole da nossa comum língua e aparecem nos dicionários escritas todas em minúscula, podendo pluralizar-se nas regras habituais (ex.:óvnis). Ora, se, por exemplo, FENPROF não obedece à índole da língua e para mim não é um acrónimo, já Crefito o pode ser, e, então, poderíamos escrever «os Crefitos». Assim, a dupla grafia que diz aparecer para esta sigla significa que, com as letras em minúscula, a palavra se considera já lexicalizada.

Esperamos ter satisfeito...