Conceição Saraiva - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Conceição Saraiva
Conceição Saraiva
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Licenciada e Mestre em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professora de PLE no Departamento de Língua e Cultura Portuguesa da FLUL. Formadora certificada pelo IEFP.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

A Junta de Freguesia do Painho vem por este meio colocar a seguinte dúvida: qual é a origem e o significado da palavra Painho?

Resposta:

Não há certezas, mas é provável que o topónimo Painho tenha origem no antropónimo latino Pelaginus, cuja evolução acabou por tomar em português a forma em questão.

Transcrevo o que José Pedro Machado diz sobre o topónimo Painho no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (manteve-se a ortografia original e desenvolveram-se as abreviaturas):

«Painho, top[ónimo] Avis, Cadaval, Sertã (Barreiros do Painho) Do s. m. painho, ave. Na verdade, o top[ónimo] tem aspecto moderno; não sei por isso se em todos os casos teremos de repelir a hipótese de se tratar do lati[im] Pelaginus [...].»

No entanto, A. de Almeida Fernandes, em Toponímia Portuguesa – Exame a Um Dicionário (Associação para a Defesa da Cultura Arouquesa, 1999), defende a forma latina Pelagius, que em português dá o nome próprio Paio, e o seu diminutivo Pelaginus como as que devem ser incluídas na análise etimológica de Painho.

Pergunta:

O que é «consistência argumentativa»?

Resposta:

«Consistência argumentativa» é a propriedade de os argumentos, ditos ou escritos, demonstrarem verdade ou falsidade, baseados numa boa estruturação: devem transmitir ao interlocutor validez, lógica, solidez, firmeza, boa fundamentação, coerência e, portanto, serem dignos de crédito. O argumento, para ser credível e consistente, tem de evitar também a ambiguidade e a redundância; deve ser captado por quem lê/ouve como uma tese, uma doutrina.

Sempre ao dispor.

Pergunta:

Dizer «uma população é relapsa a um certo hábito» equivale a dizer que essa população é negligente, relaxada, ou que é reincidente, obstinada, relativamente ao hábito?

Os dicionários consultados permitem os dois sentidos.

Agradeço os esclarecimentos.

Resposta:

O Dicionário da Língua Portuguesa da Texto Editora (2009) atribui três acepções a relapso: «adj. e s. m. 1. que ou pessoa que reincide, reincidente 2. que ou pessoa que é impenitente 3. que ou pessoa que é obstinada (Do lat. relapsu- , «que tornou a cair», part. pass. de relābi, «tornar a cair; cair para trás»)». No Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências encontra-se, igualmente, relapso como adjectivo e como substantivo, sendo as definições, para cada uma das acepções que apresenta, idênticas àquelas definidas no manual lexicográfico anteriormente citado. O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa Nova Fronteira remete relapso para lapso.

Considera-se, assim, que «uma população é relapsa» quando, de facto, repete o lapso. Em vez de corrigir o erro, este torna-se num «hábito».

Sempre ao dispor.

Pergunta:

Como se diz correctamente?

— «Vou acender/apagar a luz!»

— «Vou ligar/desligar a luz!»

Resposta:

Ambas as formas são correctas. Cada uma delas faz parte do uso dos falantes da língua.

Alguns materiais lexicográficos consultados referem, entre outras acepções, as duas formas para o acto que a consulente refere. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa descreve na mesma acepção: «acender pôr(se) em funcionamento (relativamente à luz, à força eléctrica), ligar (um aparelho, um equipamento etc.) <a. o rádio> <a. a luz>.» Acontece o mesmo com as entradas lexicais apagar e desligar.

Ao dispor.

Pergunta:

É frequente, em ambiente profissional, a troca de e-mails com a utilização da expressão inicial de saudação «Caros Todos», penso que em tradução directa de «Dear all» [em inglês]. Acho errado, pois, se são "Caros", são-no "todos", tornando a expressão redundante. Podem esclarecer?

Obrigado.

Resposta:

Sobre «caros todos», trata-se, de facto, de tradução directa do inglês, a qual, em português, dá origem a uma forma de tratamento incorrecta.

Em português, ao dirigirmo-nos a alguém, quer na escrita, quer na oralidade, a forma de tratamento correcta é apenas: «Caros.» O uso de «Caros» não é incorrecto, uma vez que, tratando-se de correio electrónico, a intenção é a economia da linguagem.

Se, no entanto, se pretender um tratamento mais personalizado, sugiro que se complemente com as expressões colega(s)/amigo(s).

Sempre ao dispor.