Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Em castelhano são muito comuns frases do tipo hay + que + infinitivo, por exemplo: «a esto hay que sumar propuestas creativas como...»; «Hay que trabajar»; «hay que oír y hay que hablar», etc. São corretas e de uso aconselhavel em português as frases com a construção + que + infinitivo? Que outras formas sem o verbo haver são sinónimas e de uso geral?

Muito obrigado.

Resposta:

Numa frase declarativa afirmativa, há gramáticos normativistas que consideram «haver que» como intrusão do espanhol, e, como tal, recomendam a sua substituição pelas locuções «é necessário», «é preciso» (cf. Rodrigo de Sá Nogueira, Dicionários de Erros e Problemas de Linguagem, s. v. há que, Lisboa, Clássica Editora, 1989). Contudo, os mesmos autores aceitam a expressão «não há que...», como se documenta num comentário do Dicionário Houaiss (s. v. haver) sobre esta construção:

«[...] outro uso do v[erbo] haver em combinação com a partícula que ocorre em orações negativas do tipo não há que duvidar do que disseram; não há que se conformar com o que aconteceu; não havia que surpreender-se, nas quais a oração substantiva objetiva (obj[eto] dir[eto] de haver) é integrada pela conj[unção] que (Epifânio Dias considera que conj[unção] causal, enquanto alguns gramáticos preferem considerar que há elipse de um substantivo – ou, mais exatamente, de um substantivo + preposição – o que faz do que um pron[ome] relativo: não havia [razão por] que surpreender-se; não há [coisa de] que duvidar) [...].»

Observe-se, mesmo assim, que «há que» é atualmente usado em português sem que haja a noção de que se trate de castelhanismo. Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 2002, p. 232), refere-se a esta construção como uso que se verifica «mais modernamente», sem qualquer comentário condenatório.

Pergunta:

Qual a formulação certa: «cada vez que (...)», ou «de cada vez que (...)»?

Resposta:

As duas expressões estão corretas e não há diferença semântica entre elas.

Sobre «cada vez que» não há dúvidas, porque intuitivamente se chega à conclusão de que esta é forma mais frequente da construção. Mas a variante «de cada vez que...» também é legítima, podendo documentar-se em textos de escritores portugueses do século XIX (cf. Corpus do Português, de Mark Davies e Michael Ferreira):

«Se visses o sobressalto com que mando à caixa da porta de cada vez que nela arranha a mão do entregador!» (Ramalho Ortigão, Cartas a Emília, 1888).

Pergunta:

Qual o processo de formação da palavra oligofrénico? Derivação por sufixação?

Resposta:

Efetivamente, trata-se de uma palavra derivada por sufixação: oligofren- + -ico (sufixo sem acento próprio e, por isso, o acento da palavra recua, tonando-a esdrúxula). Note-se que a base de derivação de oligofrénico é oligofren-, radical de oligofrenia, «deficiência do desenvolvimento mental, congênita ou adquirida em idade precoce, que abrange toda a personalidade, comprometendo sobretudo o comportamento intelectual» (Dicionário Houaiss). Oligofrénico significa, portanto, «respeitante a oligofrenia» ou «que ou aquele que sofre de oligofrenia» (idem).

Pergunta:

Qual é a tradução da palavra hebraica ruah e da grega pneúma?

Obrigado.

Resposta:

A palavra grega peûma, -atos, significa «sopro, vento, ar», «sopro divino, espírito» e «Espírito Santo». Foi adaptada ao português como pneuma, substantivo masculino que ocorre como termo especializado da filosofia (cf. Dicionário Houaiss).

A palavra hebraica ruah tem também significado semelhante a pneuma («hálito, ar») e é usada em português também como apelido entre indivíduos da comunidade judaica ou com ela relacionados (cf. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa).

Pergunta:

Na expressão «o último aluno a chegar», a palavra último é, de acordo com a nova terminologia linguística, um adjetivo numeral?

Resposta:

Não é um adjetivo numeral, apesar de último ter associada uma ideia de ordem num conjunto*. Em vez disso, é um adjetivo qualificativo, mas com características muito especiais; por exemplo, não é graduável, nem aparece à esquerda do nome: *«o muito último cliente» (o asterisco indica agramaticalidade).

* Observa Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira/Editora Lucerna, 2009, pág. 206): «Último, penúltimo, antepenúltimo, posterior, derradeiro, anteroposterior e outros tais, ainda que exprimam posição do ser, não têm correspondência entre os numerais e por isso devem ser considerados meros adjetivos.»