Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Sabe-se a origem da expressão «pelas barbas de Netuno» em língua portuguesa?

Encontrei num site pouco fiável a seguinte informação: «Essa expressão, aliás, foi criada pelos homens que viviam da navegação para externar espanto em momentos de turbulência.»

Há fontes estáveis que comprovem essa hipótese?

Obrigada pela atenção!

Resposta:

A explicação apresentada pela consulente dá mais conta do contexto provável da criação da expressão do que da sua verdadeira origem, que, aliás, não se consegue determinar.

O facto de a expressão incluir Netuno (em Portugal e noutros países, Neptuno) sugere que a inspiração vem da mitologia greco-romana, mas pouco mais conseguimos apurar com base nas fontes a que temos acesso. Mas não é garantido que a expressão tenha origem direta na Antiguidade, pois pode bem ser criação mais recente, tanto no português como noutras línguas dele próximas.

Pergunta:

«Do que depender de mim, ninguém ficará a saber nada» ou «Do que depender de mim, ninguém ficará a saber de nada»?

Isto no sentido de a pessoa prometer que vai guardar segredo.

Obrigado.

Resposta:

 Os dois usos de saber são adequados ao contexto que refere na pergunta:

(1) «Do que depender de mim, ninguém ficará a saber nada» = «Do que depender de mim, garanto que não direi nada e, portanto, ninguém ficará a saber nada»

(2) «Do que depender de mim, ninguém ficará a saber de nada» = «Do que depender de mim, garanto que não direi nada e, portanto, ninguém terá informação acerca de nada»

Mesmo assim, atendendo a que, em (1), «não saber nada» pode também ser interpretado como «desconhecimento completo/ignorância completa», sem pressupor a circulação de informação, a formulação apresentada em (2) afigura-se mais precisa por sugerir uma situação em que se torna possível passar informação e fazer com que alguém obtenha conhecimento total ou parcial sobre outra pessoa ou alguma coisa, por exemplo, um acontecimento.

Daí o emprego de «saber de» em frases como «não tenho sabido de ti» ou «já sei disso» (cf. https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/averiguar-de/484).

Pergunta:

Embora seja comum usar o vocábulo aquando como fazendo parte de uma alegada locução adverbial (Caldas Aulete), a verdade é que, classificando-a apenas como conjunção, o primeiro dicionário que encontrei e que o menciona é o de Cândido de Figueiredo, atribuindo-lhe os significados de ao mesmo tempo que, quando.

No meu tempo de jovem, se bem me lembro, os populares usavam o termo aquando seguido do artigo (o/os, a/as). Gostaria de saber se consideram um erro o uso do artigo (aquando a) em vez da preposição (da), ou não passará de uma escolha um pouco ao sabor da moda. Se for possível, rogo também o favor de indicar uma qualquer página de um qualquer livro em que Camilo, Aquilino ou algum outro autor clássico, dos que honram a nossa língua, apliquem essa expressão.

Obrigado pela atenção e pelo precioso serviço a que nos habituaram.

Resposta:

O uso de aquando sem preposição está correto, como também é legítimo e – pelo menos, hoje – mais corrente o emprego de «aquando de».

Relativamente às fontes indicadas na consulta, convém assinalar que no dicionário de Caldas Aulete se regista aquando não só como locução adverbial, mas também como conjunção, o que parece não aplicar-se ao caso em apreço. Também o registo no dicionário de Cândido de Figueiredo não parece ir ao encontro do uso de aquando, com ou sem de, antes de expressão nominal; com efeito, a definição da entrada de aquando nesta fonte resume-se a indicar que se trata de « conj. pop. Ant. Ao mesmo tempo que. Quando», o que significa que se contempla o emprego de aquando a introduzir oração, mas não a introduzir uma expressão nominal (ou, se quisermos, noutro tipo de terminologia, um sintagma nominal como acontece em «aquando a Restauração»).

Se o uso de aquando que aqui se discute é o associado a uma expressão nominal, então tem de se pensar numa preposição ou uma locução prepositiva.

Facultando registos de aquando como preposição, conta-se o Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (1947, p. 246) e o Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), nos quais o autor, o filólogo Rebelo Gonçalves, exibe «aquando de» como locução prepositiva. É de notar que, nestas fontes, o que se regista é «aquando de», como locução, e não aquando, como preposição.

O gramático prescri...

Pergunta:

Priberam diz-nos que bacanal só pode ser do género feminino.

Infopédia diz-nos que é de dois géneros mas que, no sentido de «festa licenciosa», só pode ser masculino.

Para baralhar ainda mais, o Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa diz que o termo é de dois géneros mas que, no sentido de «festa religiosa», só pode ser feminino.

Em que ficamos? E porquê?

Resposta:

O uso de bacanal no género masculino («o bacanal») parece tardio e próprio do registo informal.

É verdade que nos dicionários mais recentes, em linha e elaborados ou mantidos em Portugal, o substantivo bacanal não tem classificações convergentes quanto ao género gramatical. Mas o confronto do registo na Infopédia e do dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (ACL) com registos mais antigos –- por exemplo, o Vocabulário Ortográfico de 1940, da ACL, e o Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves – permite pensar que bacanal no género feminino é anterior ao seu uso no género masculino. Poderá, assim, supor-se que, por ser mais antigo, o uso no feminino é mais correto que o uso no masculino.

Contudo, afigurar-se-á muito estranha – pelo menos, do ponto de vista da intuição que se possa ter da língua no uso contemporâneo – uma frase como «fui ontem a uma festa que descambou numa bacanal», porque «a bacanal» parece convocar uma linguagem latinizante e assim evocar os tempos da antiga Roma. Como não é disso que se trata, espera-se que, nos dias de hoje, a tal festa tenha acabado por se tornar «uma festa licenciosa», sem ritos pagãos dedicados a um deus greco-romano (cf. Infopédia).

Propõe-se aqui, portanto, que «o/um bacanal», no masculi...

Pergunta:

Qual é a origem do nome Mualdes? Que significado tem?

Resposta:

É um topónimo da freguesia de Brasfemes, no concelho de Coimbra.

Pela forma, parece variante de Moalde, topónimo do concelho de Matosinhos, no distrito do Porto, que tem origem no nome próprio medieval Manualdo.

Existe também uma «rua do Mualde» em Sanguedo, freguesia de Santa Maria da Feira, concelho que fica já na órbita histórica e cultural do Porto.

O topónimo coimbrão Mualdes parece, portanto, ter a mesma origem, mas o s final não tem explicação clara. Pode ser um plural de Moalde/Mualde, mas não foi aqui possível obter informação que confirme tal hipótese. Sendo assim, deve-se considerar com alguma prudência a relação de Mualdes com os topónimos da área metropolitana do Porto.