Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

A forma correta é efetivamente aziago.

Note-se, porém, que antes da Reforma Ortográfica de 1911, se escrevia asiago, com s, de algum modo contrariando a etimologia da palavra. Com efeito, do ponto de vista histórico afigura-se mais adequado o z, porque a sibilante correspondente provém de uma antiga africada [ts] em posição intervocálica. Compreende-se melhor este aspeto, tendo em conta que o adjetivo tem origem no «latim tardio *aegytiācu pelo latim Aegyptiăcus, a, um, «egípcio», segundo o Dicionário Houaiss, que esclarece ainda que «o vocábulo era usado na Idade Média para designar dias infaustos, em alusão às pragas do Egito».

 

Pode escrever «ria Formosa», mas recomenda-se «Ria Formosa» como grafia deste hidrotopónimo1, justamente porque não se diz «a Formosa».

Em casos como estes, em que o classificador toponímico (rio, ribeira, ria, mar) faz parte do nome geográfico e é deste inseparável, aconselha-se a maiúscula inicial nos dois elementos2: «Ria Formosa».

 

1 Um hidrotopónimo é um nome que designa uma massa de água que pode pertencer a diferentes tipos identificados por termos como baía, canal, lagoa, lago, oceano, ria, rio, entre outros (cf. Gramática do Português, Lisboa Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, p. 1019).

2 «[...] [P]ropomos [...] as seguintes convenções (aliás também aplicáveis aos outros nomes próprios de base descritiva): (i) quando o classificador (toponímico) é obrigatório, escrever-se-á com letra maiúscula, como em (o) Lago Léman (esse lago não pode sre designado apenas como (o) Léman); (ii) quando o classificador (toponímico) é opcional, escrever-se-á com letra minúsucula, como em (o) rio Tejo (esse rio pode ser designado apenas como (o) Tejo)» (idem, p. 1020).

O apelido Camões é provavelmente o resultado português do atual topónimo galego Camos, nome de um lugar no concelho pontevedrês de Nigrán.

A forma portuguesa reflete de algum modo a que tinha o nome quando passou a circular em Portugal como apelido, com a vinda de Vasco Pires (ou Peres) de Camões, que por volta  de 1370 saíra da Galiza para servir o rei português D. Fernando na luta contra Henrique de Trastámara, que veio a ser rei de Castela1.

No século XVII, acreditava-se que o apelido seria originário da região de Fisterra (ou Finisterra) ou de Noia, na Galiza, supondo-se que fosse uma deturpação do apelido Caamãno. Contudo, em 1956, o filólogo galego M. Fernández Rodríguez sustentou que Camões proviria do topónimo galego Camos, no sul da província de Pontevedra, hipótese que tem hoje aceitação, até pela semelhança das formas tardo-medievais do topónimo com a forma do apelido2.

Camões, hoje palavra aguda, deverá ter sido pronunciada como palavra grave, ou seja, como "cámões", conforme observa o filólogo galego Paulo Lema3:

«[...] [A] forma Camos (conc. Nigrán, P), registad[a] como Sancte Eolalie de Caamones (Poio 1228), Sancta Vaya de Camones (Tui 1325), Camoes (1447) e ainda outras variantes [...] autorizam a propor um étimo *calamŏnes, aparentado com topónimos galegos como Caamaño, Caamouco e similares. É a partir dessa forma que podemos reconstruir uma sequência evolutiva como *calamŏnes > *Caamõẽs > *Cámõẽs > *Cámõõs > *Camõs > Camos [...].»

O topónimo terá origem pré-latina, sen...

Nas fontes consultadas, não se encontra registo de termo português equivalente a grawlix – que soa como "grólix". A palavra inglesa também não parece nada frequente em páginas da Internet escritas em português.

O anglicismo terá sido cunhado como palavra completamente inventada por Mort Walker, autor de banda desenhada norte-americano (cf. Lexico). Serve para designar uma sequência de símbolos que, em substituição de obscenidades, ocorrem nos balões de diálogo (filactérios1) das histórias em quadradinhos (ou quadrinhos), ou seja, em histórias de banda desenhada. Por exemplo: #*%@$!

Não foi possível encontrar em português um termo sinónimo com uso estável. Mas podem sugerir-se «obscenidades figuradas» ou «asneiradas figuradas»2.

 

1 Filactério é um termo que designa geralmente a «faixa de pergaminho provida de legendas religiosas e cabalísticas que os judeus traziam junto à testa ou ao braço com o fito de afastar o infortúnio, a desdita» e que também, ocasionalmente, ocorre como sinónimo de «balão de diálogo» no contexto da banda desenhada (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

2 Outra sugestão, do consultor Luciano Eduardo de Oliveira (comunicação pessoal): «palavrões omissos» ou «omissão de palavrões».

Também se diz e escreve ervanço e gravanço, entre outras variantes (erbanço, gravanço, grabanço, garbanço, esgrabanço)1.

A etimologia desta palavra é obscura, conforme se aponta no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa2:

«esp. garbanzo, originalmente arvanço ou ervanço (tanto em espanhol quanto em português), alterados, segundo Joan Corominas [e José Antonio Pascual, Diccionario Critico Etimológico Castellano e Hispánico], por influência do g- de vários nomes de legumes: garroba/algarroba 'alfarroba', gálbano 'idem', português grão; de origem incerta, provavelmente de uma língua indo-europeia., talvez pré-romana [...].»

 

1 Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves (1907-1982), só regista ervanço e gravanço, mas, numa perspetiva não normativa, de recolha de toda a variação regional, o Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e P...