Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

As formas Argel e Argélia terão surgido por metátese, isto é, por troca de posição de segmentos na estrutura silábica da configuração mais antiga destes nomes, Alger e Algeria, talvez empréstimos do catalão ou do italiano1. A alteração deve ser bastante precoce na história destes nomes em castelhano e em português, pois parece já estável na documentação dos dois idiomas, pelo menos, desde o séc. XVI (cf. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa e Corpus diacrónico del español – CORDE da Real Academia Espanhola).

Observe-se que, em posição inicial, é possível identificar alguns casos de substituição de /l/ por /r/, por exemplo, por dissimilação, como acontece com argola, do árabe andalusi alġulla, que vem por sua vez do árabe clássico ġull «cepo; peça de madeira posta ao pescoço dum condenado» «(cf. Federico Corriente, Diccionario de Arabismos y Voces Afines en Iberromance, Gredos, 2003)2. A toponímia de Portugal também faculta exemplos deste tipo não de origem árabe, mas de origem românica, como Argozelo (Vimioso), atest...

As formas corretas são:

(a) «a par de» («ao lado de, junto; em comparação com»)

(b) «de par com» («juntamente com; ao lado de»)

As duas locuções são, portanto, sinónimas, porque ambas podem ser empregadas na aceção de «juntamente com» (cf. António Nogueira Santos, Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas - Português, Edições João Sá da Costa, 2000). Note, porém, que a literatura pode dar abonações da forma «a par com»:

(1) «Quando o via assim mortal, ia sentar-se a par com ele, abria um livro da vida de Cristo, que trazia consigo, e lia-lhe. » (Arnaldo Gama, A Última Dona de S. Nicolau, 1864)

Parece tratar-se de ocorrências muito marginais, pelo que se deve dar preferência à locução «de par com».

Não são compostos, mas pode considerar-se que estão entre os compostos morfossintáticos e as associações livres de nome e adjetivo (formando sintagmas). A este tipo de associações recorrentes, já quase fixas, os estudos linguísticos chamam colocações, solidariedades lexicais ou lexias.

É, portanto, frequente o uso de «trabalho duro» e «trabalho árduo», expressões praticamente sinónimas (sendo a segunda uma alternativa intensificadora da primeira), em que a adjetivação tem caráter convencional; e, para estas colocações, não é difícil encontrar abonações, algumas até bem antigas (Corpus do Português, de Mark Davies):

trabalho duro

(1) «Despeço-me com saudade – nem me peja dizê-lo diante de vós: é virar as costas ao Éden de regalados e preguiçosos folgares, para entrar nos campos do trabalho duro, onde a terra se não lavra senão com o suor do rosto [...].» (Almeida Garrett, "Memória ao Conservatório Real", Frei Luís de Sousa, 1844)

(2) «No melhor dela, quando tudo parecia fantasia e sonho, os corpos lembraram-se do dia seguinte e do trabalho duro que os esperava.» (Miguel Torga, Vindima, 1945)

trabalho árduo

(3) «O major tentou imaginar Teresa de ca...

A frase em questão está correta.

A palavra idade pode combinar-se sem incorreção com nomes que denominam entidades que não são pessoas, nem animais, nem outros seres vivos: «idade de uma/da empresa», «idade de uma/da ponte», «idade de um/do equipamento». Trata-se de casos em que este nome é sinónimo de existência ou «tempo de existência», num processo de extensão semântica, isto é, através da formação de um novo significado da palavra decorrente da associação desta a vocábulos de classes e subclasses semânticas com que não costuma associar-se.

Estas associações encontram-se, por exemplo, em textos especializados cujas necessidades terminológicas impõem frequentemente usos vocabulares menos aceitáveis na linguagem corrente:

(1) «Recentemente, a idade da empresa destaca-se como uma das principais variáveis que influenciam a determinação dos salários. Alguns autores identificam um efeito positivo entre a idade da empresa e os salários [...]. Teoricamente, as empresas com maior idade são aquelas que apresentam maiores níveis salariais aos seus trabalhadores.» (Ana Brum Cordeiro, O Efeito da Idade da Empresa nos Salários, Universidade dos Açores, 2015, p. 4)

Mas encontram-se outros exemplos deste uso de idade em textos tanto literários como não literários (atestações extraídas do Corpus do Português, Mark Davies):

As duas formas estão corretas.

Sobre a construção por + expressão nominal + fora1, não há dúvidas quanto à sua correção e observa-se que tem frequência significativa. No entanto, também ocorre suprimir a preposição, ficando a construção reduzida a expressão nominal + fora1, que aparece mais raramente, mas não está incorreta – pelo contrário, pois dá realce à expressão do movimento de forma bastante concisa. A mesma omissão é possível com outros advérbios com verbos de movimento e nomes que denotam as noções de caminho, passagem ou recinto: «foi pela casa dentro»2 vs. «foi casa dentro»; «foi pela ladeira acima» vs. «foi ladeira acima»; «veio pela rua abaixo» vs. «veio rua abaixo».

Há exemplos literários deste uso de fora, sobretudo da locução «estrada fora», isto é, «pela estrada fora», tanto entre escritores portugueses, como em autores brasileiros (abonações recolhidas no Corpus do Português, de Mark Davies; sublinhados nossos):

(1) «Por isso é que quando ela arrancava estrada fora, PUF.. PUF.. os rapazitos, aqueles diabos, corriam a acompanhá-la, rindo e acenando com os braços [...]» (José Cardoso Pires, A República dos Corvos, 1999)

(2) «Noite fora, duas, três vezes, não pôde impedir-se de verificar se lá continuava: de cada vez o mesmo sorriso e o mesmo gesto do dedo a rodopiar, convidando-a...