Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

O adjetivo propício, que tem o significado geral de «que tem as características adequadas e necessárias para; bom, favorável» (Dicionário Houaiss), constrói regência com ambas as preposições, a e para.

O uso destas preposições parece ter distribuição complementar: a ocorre antes de nomes ou expressões nominais, e para introduz orações reduzidas de infinitivo – se considerarmos o exame das abonações recolhidos por Francisco Fernandes, para o seu Dicionário de Regimes de Substantivos e Adjetivos (São Paulo, Globo, 1995; sublinhado nosso):

(1) «Em matéria lexicográfica, de índole tão delicada e sobretudo tão propícia a controvérsias, errar é facílimo.» (Mário Barreto, Através do Dicionário e da Gramática)

(2) «Rui era o orador,e a oportunidade foi propícia para iniciar o ataque contra Saraiva.» (Luiz Viana Filho, A Vida de Rui Barbosa)

Nota-se, contudo, que a preposição para ocorre também antes de expressão nominal, associação que nã...

O texto do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) não impede que nomes como Kwanza, Kuwait, Malawi possam ser aportuguesados.

Da Base I, ponto 2 do AO 90 infere-se que, na época em que este texto normativo foi redigido, se usavam nomes de países com origem em ortografias estrangeiras, por exemplo, Malawi, cujo gentílico, malawaiano, mantinha o w, apesar de ser um derivado no contexto do português. Mas isto não parece significar que a menção de Malawi seja o mesmo que estipular que se trata de forma não adaptável.

Sendo assim, as formas Maláui, Botsuana, Zimbábue, Burquina Fasso, Seicheles ou Essuatíni (o novo nome do país que se chamava Suazilândia) são interpretáveis como a fixação de aportuguesamentos ao encontro da recomendação feita no ponto 6 da Base 1 do AO 90. Não podendo dizer-se que atualmente são de uso obrigatório, deve, no entanto, observar-se que são aportuguesamentos disponíveis e aconselhados, de tal maneira que foram adotados pelo Código de Redação do português para as instituições europeias. Esta fonte indica igualmente os gentílicos respetivos, derivados da base já aportuguesada: malauiano, botsuano, zimbabuen...

Só conseguimos saber que a expressão já era conhecida no séc. XVI, como atesta a sua ocorrência na Comédia Eufrósina (1560), de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515/1525?–1585). Uma versão mais antiga é «cada feira val menos, como burro de Vicente», a qual talvez aluda a algum episódio da vida aldeã, conforme sugere Jean Lauand, no artigo "500 provérbios portugueses antigos – Educação moral, mentalidade e linguagem".

Agradece-se ao consulente a extensa exposição sobre o uso do nome comercial X-Acto em Portugal. Pode concordar-se com ela em muitos pontos, sobretudo quanto aos que permitem ajuizar que x-ato não será a melhor grafia para a palavra em questão. Observe-se, porém, que é possível e até legítimo escrever xisato (ou xis-ato) apenas atendendo à fonética popularizada entre falantes de Portugal. Trata-se, é certo, de uma forma popular, que se confinará ao registo informal, se outro termo não houver para nomear a ferramenta em apreço.

Este caso encontra algum paralelo noutro exemplo, o de peclise um aportuguesamento fonético e nada criterioso da expressão francesa pied à coulisse –, que, embora registado em alguns dicionários, tem associada à respetiva entrada a indicação de uso que a relega para o registo informal. Assim, pode achar-se (ou acha-se mesmo) que paquímetro constituirá o termo mais adequado, como termo técnico de formação erudita, em princípio, de consagração normativa menos discutível, e, talvez por isso, sem o estigma de iliteracia que rodeia a génese de peclise. Com x-ato, acontece, no entanto, pelo menos, em Portugal, que a alternativa lexical existente, constituída pelas palavras estilete e bisturi, não parece ter uso tão extenso ou tão saliente, situação indicativa de que, no fim de contas, o caso de peclise não trará grande ajuda.

Por outro lado, a grafia x-ato, como atualização de x-acto no quadro da norma ortográfica em vigor, não parece corresponder a um caso ...

A construção «outro que não...» está correta.

A estrutura em questão foi rejeitada por certos puristas, como Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998), que a considerava «canhestra tradução de "other than that" [que] anda a aparecer em jornais» (Dicionário de Questões Vernáculas, São Paulo, Livraria Ciência e Tecnologia Editora, 1994); e, com efeito, os exemplos que Mendes de Almeida censurava acusavam sinais de má tradução.

Contudo, é duvidoso que a sequência «outro que não...» seja, por si só, um anglicismo sintático, dado que a construção ocorre, afinal, em textos de escritores portugueses e brasileiros dos séculos XIX e XX, a respeito dos quais não se afigura provável existir uma especial relação com a língua inglesa (exemplos retirados do Corpus de Português, de Mark Davies):

(1) «"O rebanho parecia ser o mesmo, lá isso.. Agora o pastor é que podia ser outro que não a Rosária."» (Trindade Coelho, "Idílio rústico" in Os meus amores: Contos e baladas, 1891)

(2) «Sobre a nomeação recaiu em outro que não o seu candidato. » (Machado de Assis, Epistolário)

(3) «[...] concluiu Lima Ventura, que a ideia de homenagens a outros que não a si próprio não era de molde a entusiasmar.» (Júlio Dantas, Abelhas Doiradas, 1912)

(4) «O pior era quando o faziam subir, e apareciam outros que não o Travancas.» (José Régio,