Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

 Ouço, com muita frequência, várias pessoas (algumas consideradas "cultas") utilizarem as palavras embalagem e embalo como sinónimas no sentido de movimento.

Para mim nada têm em comum.

Pergunto: estarei errada?

Grata pela atenção dispensada.

Resposta:

Em determinados contextos, as palavras poderão ser usadas com um sentido equivalente. Todavia, têm também sentidos próprios e específicos.

O nome embalagem poderá descrever tanto o «ato de ganhar velocidade, de acelerar, de embalar» como a «capacidade de agir ou executar algo rápida e sequencialmente; velocidade na execução de algo»1 (uso informal).

Por sua vez, o nome embalo tem significados como a «ação ou resultado de embalar» ou o «movimento de vaivém lento e regular». Em usos informais, também pode significar «capacidade de agir ou executar algo rápida e sequencialmente; velocidade na execução de algo»1, uso equivalente ao de embalagem.

Em construções como «tomar embalagem; ganhar embalagem», o nome embalagem assume o sentido de «ato de ganhar velocidade, de acelerar, de embalar»1. O nome embalo também pode ter associada esta mesma ideia de movimento.

Disponha sempre!

 

1. Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa

História e dia
Divisão silábica

Quantas silabas têm as palavras história e dia? A professora Carla Marques dá resposta ao Desafio Semanal, na rubrica divulgada no programa Páginas de Português, da Antena 2 (15/12/2024). 

Pergunta:

Na passagem textual «louvai a Deus, enfim, servindo e sustentando ao homem, que é o fim para que vos criou», qual a função sintática desempenhada por «que é o fim para que vos criou»?

Obrigada!

Resposta:

A oração «que é o fim para que vos criou», retirada do Sermão de Santo António, de Padre António Vieira, não desempenha uma função sintática na frase em que se insere.

A oração em causa é uma oração coordenada explicativa, que se coordena com a oração «louvai a Deus». Neste caso, que é uma conjunção coordenativa explicativa, que tem a função de introduzir a oração que tem a função de apresentar uma justificação para o ato ilocutório diretivo expresso na primeira oração.

Disponha sempre!

Pergunta:

Quando queremos referir uma diferença num fuso horário, qual é a forma mais correta de o escrever?

(1) «Aqui, são seis horas menos que no Porto.»

ou:

(2) «Aqui são menos seis horas do que no Porto.»

(3) «Aqui são menos seis horas que no Porto.»

A minha dúvida eterna: que/ do que, existência ou não da vírgula, correta posição do advérbio menos.

Obrigada!

Resposta:

Nas construções em apreço, é possível usar tanto a locução «do que» como a conjunção que, sendo as frases que daí resultam equivalentes.

As construções apresentadas incluem uma estrutura comparativa, na qual se dá a elipse do verbo:

(1) «Aqui, são menos seis horas do que no Porto (são).»

Na frase (1), compara-se o horário de um local, identificado como «aqui», com o da cidade do Porto. Ora, numa construção comparativa, é possível introduzir o segundo termo da comparação por meio da locução «do que», como em (1), ou por meio da conjunção que, como acontece na frase (2):

(2) «Aqui, são menos seis horas que no Porto (são).»

Nas frases (1) e (2), a palavra menos incide sobre o núcleo nominal horas, pelo que não constitui um advérbio (que acompanharia um adjetivo), mas sim um quantificador. Menos coloca-se antes do elemento sobre o qual incide. Alguns falantes, em situações informais, aceitarão a colocação de menos depois de horas, mas essa não será a opção mais comum.

No que diz respeito à pontuação, no interior das estruturas comparativas, não se usa vírgula a separar os dois termos da comparação.

Disponha sempre!

Pergunta:

Seria possível que me esclarecessem acerca da função sintática do constituinte «satírica» na frase «opostamente às Cantigas de Amigo e de Amor, as de Escárnio e de Maldizer envolvem a temática satírica»?

Obrigado.

Resposta:

No grupo nominal «a temática satírica», o adjetivo satírica desempenha a função de modificador do nome restritivo.

O adjetivo satírica incide sobre o nome temática e restringe o seu sentido, pelo que se trata de um modificador restritivo.

Não sendo pedido pela estrutura interna do nome temática, o adjetivo pode ser retirado da frase sem comprometer a significação do nome, que passará a ter uma significação mais abrangente.

Disponha sempre!