Brígida Trindade - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Brígida Trindade
Brígida Trindade
2K

Professora portuguesa, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é professora de português no ensino básico e professora cooperante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi investigadora do ILTEC (1990-1997).

 
Textos publicados pela autora

1. A primeira questão  colocada prende-se com a ordem livre dos constituintes na frase.

A ordem canónica da frase apresentada é «Não a víamos, (não víamos/ não se via) não aparecia nem um braço nem uma mão dela ao atirar as coisas».

O pronome contraído com a preposição de (de+ela=dela) indica a posse1 e modifica os grupos nominais um braço e uma mão. Estamos a falar de um braço e de uma mão de quem? dela.

A alteração da ordem das palavras pelo autor é uma questão estilística, possível, dado que dela, sendo um modificador do nome, pode deslocar-se dentro da frase, sem que lhe comprometa o sentido.

Assim, as frases (i) e (ii) são ambas corretas em português.

(i) «Não a víamos, não aparecia nem um braço nem uma mão dela.» 

(ii) «Não a víamos, dela não aparecia nem um braço nem uma mão.» 

 

2. Pode substituir-se uma construção por outra. As frases ( iii) e (iv)  são gramaticais:  

(iii) «Não a víamos, dela não aparecia nem um braço nem uma mão ao atirar as coisas.»

(iv) «Não a víamos, dela não aparecia nem um braço nem uma mão a atirar as coisas.» 

A proposta do consulente  em substituir ao atirar as coisas por a atirar as coisas altera o sentido da frase do...

As frases optativas1 exprimem desejos do falante como (i) e (ii), podendo, por isso, ser parafraseáveis por frases complexas dependentes de um verbo optativo como (iii) e (iv).

(i) «Que venha logo o verão!»

(ii) «Que todos cheguem depressa e bem!»

(iii) «Desejo que venha logo o verão!»

(iv) «Espero que todos cheguem depressa e bem!»

As frases optativas são  introduzidas pelo  complementador que, podendo ser também introduzidas pelo complementador se condicional, o que obriga a que o o verbo da frase esteja no modo conjuntivo.

O QUE a que se refere  na sua questão é, pois, classificado, na gramática referida, como complementador .

 Podemos, ainda, encontrar esta palavra referida no grupo2  das palavras QU-3 .

São também frases optativas (v) e (vi), em que  o sujeito (geralmente um pronome de 3.ª pessoa) aparece à esquerda do complementador que:

(v) «Eles que se atrevam!»

(vi) «Ele que me ofenda!»

As frases optativas podem ainda ser introduzidas por expressões específicas, como demonstram os exemplos (vii) a (x):

(vii) «Deus queira que ela seja feliz!»

(viii) «Queira Deus que chegue depressa e bem!»

(ix) «Deus permita que tod...

A frase apresentada apresenta uma expressão de realce, denominada construção clivada1. O enunciador está a dar destaque ao constituinte beleza da aprendizagem.

A frase apresentada não é aceitável em português europeu.

Parafraseando a frase apresentada, pretende-se dar a entender que Ninguém nos pode tirar o prazer de aprender.

A frase equivalente em português europeu seria A beleza da aprendizagem, ninguém no-la pode tirar.

 

  Sobre este assunto veja-se ainda aqui e aqui no Ciberdúvidas.

A frase apresentada – «[(Há) dias que não se esquecem.» – é uma frase complexa que apresenta uma oração subordinada adjetiva relativa (que não se esquecem), construída com o verbo esquecer que é um verbo transitivo direto ( X esquece Y).

Vejamos (i) e (ii):

(i) «Dias que não se esquecem.»

(ii) «Dias que não se esquece.»

Ambas as frases estão corretas. O verbo concorda com o sujeito, nunca com o complemento direto.

Passemos à análise.

Em ambas as frases existe uma oração relativa restritiva: «Que não se esquecem» em (i) e «Que não se esquece» em (ii).

Em (i), o pronome relativo recupera os traços de género e número do seu antecedente, dias, nome masculino, plural. Vejamos a paráfrase: (Há) dias queSujeito não são esquecidos por (se) alguém. Nesta frase o se é uma partícula apassivante cuja função sintática é complemento agente da passiva. Esta frase é gramatical e encontra-se na forma passiva e denomina-se passiva pronominal1

Em (ii), a frase está na forma ativa e a paráfrase é (Há) dias que alguém (se) não esquece, tratando-se, neste caso, de uma frase com sujeito nulo indeterminado, como o consulente diz. Denomina-se construção com se impessoal2<...

Não poderemos atribuir  ao verbo ser o sentido de transitividade tal como fazemos nos verbos denominados verbos principais.  O verbo ser pertence à classe dos verbos copulativos (ou predicativos¹). O que distingue os verbos principais dos verbos copulativos (ou predicativos) é a carga semântica: um verbo principal tem um significado intrínseco (responder, nascer, estudar, fugir,…), enquanto um verbo copulativo é  um verbo desprovido de significado, por isso se denominam também verbos de ligação. «Os verbos copulativos podem ser semanticamente  classificados em dois grandes grupos (i) os que são usados para atribuir uma propriedade ao sujeito ou para descrever um estado no qual este  se encontra  (ser, estar, andar, continuar, revelar-se e parecer); e (ii) os que são usados para descrever uma mudança de estado do sujeito (ficar e tornar-se).»²

O verbo ser pertence ao primeiro grupo e marca a atribuição ao sujeito de uma propriedade  que o caracteriza enquanto individuo («O António é eletricista»).

A frase que o consulente apresenta apresenta uma construção marcada na língua que (i) recorre à construção ser + de e (ii) é uma interrogação direta ou indireta.

No Dicionário Houaiss da língua portuguesa, lê-se, a este propósito, o seguinte: «ser de 1. Acontecer com (usa-se em associação com que ou o que, especialmente em in...