Brígida Trindade - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Brígida Trindade
Brígida Trindade
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Professora portuguesa, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é professora de português no ensino básico e professora cooperante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi investigadora do ILTEC (1990-1997).

 
Textos publicados pela autora
A classificação de <i>que</i> em «felizmente que ele chegou» III
A perspetiva do ensino não universitário em Portugal

A divulgação do apontamento intitulado «Felizmente que ele chegou» (21/11/2023) suscitou ainda o comentário da consultora Brígida Trindade, que é também professora do ensino básico e secundário em Portugal.

Pergunta:

«É um livro interessante porque nos dá ânimo de ler.»

Na frase apresentada, perguntava-vos se a preposição destacada é aceitável.

Obrigado.

Resposta:

A frase não é aceitável, porque o nome ânimo não selecciona complemento.
 
A frase correta será:
 
(1) «É um livro interessante porque lê-lo dá-nos ânimo» [«É um livro interessante porque ler este livro (lê-lo) nos dá ânimo» (estrutura profunda/canónica)]
 
Na frase incorreta, parece haver uma colagem com o nome vontade («quem tem vontade, tem vontade de algo ou alguma coisa») :
 
(2) «É um livro interessante porque (este livro) nos dá  vontade de o ler.» («É um livro interessante porque lê-lo nos dá ânimo./ É um livro interessante porque nos dá ânimo lê-lo.»)
 
Outra interpretação poderia ser:
 
(3) É um livro interessante porque nos dá ânimo para ler. («... motiva-nos para a leitura...»)
 
Em (3), a sequência «para ler» é uma oração subordinada adverbial final não final infinitiva (cf. Dicionário Terminológico).
 
Em suma,  não é aceitável a preposição de na frase em apreço. 

Pergunta:

Na expressão «regime diurno e pós-laboral», alusiva ao funcionamento de um curso ou unidade curricular em regimes distintos, há alguma regra ou circunstância específica para a utilização da palavra regime no plural («regimes diurno e pós-laboral»)?

Resposta:

Após consulta do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, bem como de gramáticas na área da flexão nominal específica, não encontrei registo de nenhuma regra específica para usar a palavra no plural. A palavra regime  segue, portanto, a regra geral de número e de concordância.

Exemplos:

a) «Foi aprovado o funcionamento do curso em dois regimes, diurno e pós-laboral.»

b) «Este curso funciona nos regimes diurno e pós-laboral.»

Tal como se pode escrever:

c)  «Os regimes diurno e pós-laboral foram aprovados pela empresa.» ( Foi aprovado o regime diurno e foi aprovado o regime pós-laboral =  os regimes diurno e pós-laboral foram aprovados).

O nome regime significa, nos contextos acima apresentados, «modo de exercer uma atividade / frequentar um curso».

Pergunta:

Sou um estudante estrangeiro e ultimamente tenho estado a ler um livro de língua portuguesa e deparei-me com uma estrutura que me causa confusão: «Não a víamos, dela não aparecia um braço nem uma mão ao atirar as coisas.» A minha dúvida é por que razão se coloca dela no início da frase. Outra questão é se posso substituir «ao atirar as coisas» por «a atirar as coisas».

Espero que o Ciberdúvidas me possa ajudar.

Agradeço pela atenção.

Resposta:

1. A primeira questão  colocada prende-se com a ordem livre dos constituintes na frase.

A ordem canónica da frase apresentada é «Não a víamos, (não víamos/ não se via) não aparecia nem um braço nem uma mão dela ao atirar as coisas».

O pronome contraído com a preposição de (de+ela=dela) indica a posse1 e modifica os grupos nominais um braço e uma mão. Estamos a falar de um braço e de uma mão de quem? dela.

A alteração da ordem das palavras pelo autor é uma questão estilística, possível, dado que dela, sendo um modificador do nome, pode deslocar-se dentro da frase, sem que lhe comprometa o sentido.

Assim, as frases (i) e (ii) são ambas corretas em português.

(i) «Não a víamos, não aparecia nem um braço nem uma mão dela.» 

(ii) «Não a víamos, dela não aparecia nem um braço nem uma mão.» 

 

2. Pode substituir-se uma construção por outra. As frases ( iii) e (iv)  são gramaticais:  

(iii) «Não a víamos, dela não aparecia nem um braço nem uma mão ao atirar as coisas.»

(iv) «Não a víamos, dela não aparecia nem um braço nem uma mão a atirar as coisas.» 

A proposta do consulente  em substituir ...

Pergunta:

Gostaria que me ajudassem com a análise da transitividade do verbo ser acompanhado de expressões do tipo de mim, dele em frases como as que se seguem: «Que seria desses meninos se lhes faltassem os pais?» — «Que será de mim se não...?»

Desde já, obrigado.

Resposta:

Não poderemos atribuir  ao verbo ser o sentido de transitividade tal como fazemos nos verbos denominados verbos principais.  O verbo ser pertence à classe dos verbos copulativos (ou predicativos¹). O que distingue os verbos principais dos verbos copulativos (ou predicativos) é a carga semântica: um verbo principal tem um significado intrínseco (responder, nascer, estudar, fugir,…), enquanto um verbo copulativo é  um verbo desprovido de significado, por isso se denominam também verbos de ligação. «Os verbos copulativos podem ser semanticamente  classificados em dois grandes grupos (i) os que são usados para atribuir uma propriedade ao sujeito ou para descrever um estado no qual este  se encontra  (ser, estar, andar, continuar, revelar-se e parecer); e (ii) os que são usados para descrever uma mudança de estado do sujeito (ficar e tornar-se).»²

O verbo ser pertence ao primeiro grupo e marca a atribuição ao sujeito de uma propriedade  que o caracteriza enquanto individuo («O António é eletricista»).

A frase que o consulente apresenta apresenta uma construção marcada na língua que (i) recorre à construção ser + de e (ii) é uma interrogação direta ou indireta.

No Dicionário Houaiss da língua portuguesa, lê-se, a este propósito, o seguinte: «ser de 1. Acontecer com (usa-se em associação com <...