DÚVIDAS

ATUALIDADES

Montra de Livros

À Flor da Língua

À Flor da Língua
Autor(es) Gregório Duvivier
Edição Tinta da China , 2026
Ver página do livro

O mais recente livro de Gregório Duvivier (actor, poeta e um dos criadores do colectivo Porta dos Fundos) chega a Portugal pela editora Tinta da China. Publicado em março de 2026 e inspirado no espetáculo O Céu da Língua, À flor da língua propõe uma celebração inteligente, sensível e divertida da língua portuguesa.

A obra, com 208 páginas, transforma em livro o espírito do espetáculo, recuperando o mesmo encanto pelas palavras, pelos seus sons e pelas suas viagens entre variantes. Duvivier escreve como quem conversa: com humor, surpresa e uma curiosidade quase infantil. Interessa-lhe a forma como as palavras se moldam, como ganham significado e como revelam hábitos culturais distintos entre portugueses e brasileiros. Explora contrastes entre palavras kiki (mais "pontiagudas") e bouba ("mais redondas") (pág. 14), mostrando como certas sonoridades parecem carregar sensações quase físicas, comuns aos falantes independentemente da variedade que usam.

O cruzamento entre Portugal e Brasil oferece terreno fértil para perceber como a história moldou usos distintos da língua. Cada lado do Atlântico reinventou sons, ritmos, diminutivos, gestos linguísticos e expetativas de comunicação. 

Entre os exemplos reunidos no livro encontra-se uma nota breve sobre Botafogo (pág. 25), usada para ilustrar como certos bairros do Rio de Janeiro oscilam entre o masculino e o feminino. O autor observa, com ironia leve, que estas escolhas revelam sobretudo hábitos locais, afetos e formas de pertença, mais do que qualquer regra gramatical fixa, sublinhando como até um simples artigo definido pode denunciar geografias íntimas.

No caso das palavras desconhecidas entre variantes, Duvivier destaca o termo javardão (pág. 128), mais corrente em Portugal e praticamente ausente no Brasil. Resume-o como uma daquelas palavras cujo som já sugere o que significa (alguém grosseiro, bruto) e comenta com humor o espanto de se aperceber de que nunca a ouvira antes, apesar de a reconhecer de imediato. Uma palavra que, como ele diz, «se explica sozinha».

Nas páginas dedicadas à formação de diminutivos com -inho e -zinho, surge outra diferença reveladora entre Brasil e Portugal: a forma como os falantes lidam com o tempo, a proximidade e o afeto. Duvivier comenta que, no Brasil, o diminutivo não reduz apenas o tamanho, mas altera o ritmo, a intensidade e até a duração das coisas: «um segundinho» que dura mais do que um segundo, «um momentinho» que se estende, «um pouquinho» que significa quase o contrário de pouco. Em Portugal, por sua vez, o diminutivo mantém-se mais literal, mais próximo da medida. E é desta comparação que nasce uma reflexão suave e divertida sobre como a história de cada país se entranha também nos sufixos que usa.

Estas pequenas investigações linguísticas, sobre toponímia, usos de artigos, diminutivos, palavras herdadas, reinventadas ou perdidas, revelam a vitalidade do português e a criatividade dos seus falantes. Duvivier mostra uma língua viva, feita de trocas culturais, equívocos cómicos e descobertas partilhadas, sempre com a leveza e inteligência que caracterizam tanto o espetáculo que lhe deu origem como a escrita que agora se fixa em livro.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa