Voluntário ou voluntarista?
Como se caracteriza o antigo diretor nacional da Polícia Judiciária?
Há palavras que parecem feitas da mesma matéria, mas que nem sempre servem os mesmos propósitos. Em Portugal, foi isso que aconteceu numa recente notícia do Correio da Manhã (19/07/2026) dedicada ao antigo diretor nacional da Polícia Judiciária e atual ministro da Administração Interna, Luís Neves, onde se lia que o seu modo de trabalhar era «disponível e voluntarista», acrescentando-se, logo de seguida, que «o voluntariado levou-o, por exemplo, [...] a passar publicamente um atestado de inocência».
A proximidade entre voluntariado e voluntarista pode tornar a escolha quase intuitiva. No entanto, quem faz voluntariado é, antes de mais, voluntário.
O adjetivo voluntário designa quem age por vontade própria ou presta um serviço de forma livre e desinteressada. É, por isso, a palavra naturalmente associada ao exercício do voluntariado.
Já voluntarista não significa «quem faz voluntariado». Segundo a Infopédia, trata-se de quem é adepto do voluntarismo ou, mais significativamente, de quem «baseia as suas previsões no desejo de que estas se cumpram e não em probabilidades ou factos reais». O termo caracteriza, portanto, uma forma de encarar a realidade, e não uma atividade de natureza solidária.
É verdade que os dicionários nem sempre traçam fronteiras absolutamente rígidas. O Houaiss, por exemplo, regista um valor de voluntário como sinónimo de voluntarioso, aproximando-o da ideia de alguém determinado ou impetuoso. Mas esse alargamento de sentido não faz o percurso inverso: voluntarista continua a não designar quem participa em ações de voluntariado.
Neste caso, tudo indica que a intenção era elogiar a disponibilidade de quem se dedica a causas de forma altruísta. Bastaria, por isso, dizer que era voluntário.
