Se o apelido é Sanches, porquê dizer Sánchez?! - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Se o apelido é Sanches, porquê dizer Sánchez?!
Se o apelido é Sanches,
porquê dizer Sánchez?!

Em Portugal, os profissionais de rádio e de televisão, salvo raras exceções, pronunciam o apelido do jovem futebolista do Benfica Renato Sanches como se se tratasse de um mexicano – logo, "Sánchez", com z –, sendo responsáveis pela disseminação do erro entre os adeptos em geral, não obstante o jogador só aparecer em público com o nome estampado corretamente nas costas da camisola. Não saberão ler?

Há uns anos tinha ocorrido algo semelhante com o brasileiro Ramires, que por cá passou durante um ano como Ramírez e que, ainda hoje, aparece esporadicamente nas notícias em versão hispânica. E, a seguir, teremos um Gómez, um Méndez, um Rodríguez, um Núñez, um Fernández?

A terminação es corresponde realmente à espanhola ez, significando «filho de», e que têm correspondência em quase todas as línguas europeias. Sanches significa «filho de Sancho», nome do rei em cujo reinado se inspirou a trama de um dos romances de Eça de Queirós, a Ilustre Casa de Ramires, em que o fidalgo Gonçalo Mendes Ramires, um espertalhão com pouco talento, elabora a partir de um escrito de um tio sobre as façanhas de um suposto antepassado, Tructesindo Ramires, cavalheiro do rei. E como isto anda tudo ligado, também na história de Eça existe um Sanches, o deputado Sanches Lucena, cuja morte serviu de oportunidade a Gonçalo Ramires para tentar a vida política.

É incompreensível que seja mais fácil a um jornalista português tentar dizer bem um nome sérvio-croata do que uma palavra do seu próprio idioma, com mil anos de existência. Qual a razão para esta falta de rigor em contraste com as preocupações, muitas vezes ridículas e redundando em más emendas fonéticas de nomes eslavos, saxónicos ou, até, franceses e italianos?

A explicação mais lógica é arrasadora para as competências de jornalistas e editores, que se copiam uns aos outros na maioria das opções editoriais e se mostram incapazes de corrigir erros primários – e diz muito sobre a falta de rigor e maus-tratos da língua que grassam pelas redações, onde foram reduzidos ao mínimo os serviços de revisão e controlo interno, em detrimento das preocupações com a imagem.

Como sugere Eça em A Ilustre Casa de Ramires, a escrita é um trabalho muito difícil.

N. E. – Na verdade, MéndezFernández podem ser formas galegas (ver Cartografía dos Apelidos de Galicia), e não castelhanas. Os apelidos correspondentes de feição castelhana são Menéndez (este também nas regiões asturo-leonesas) e Hernández. Note-se ainda que a terminação -es de Sanches ou Ramires se escrevia -ez até aos começos do século XVII, como comprova a forma do nome de Fernão Mendes Pinto, na 1.ª edição da Peregrinação, de 1614: Fernam Mendez Pinto. Não se trata de influência castelhana, mas, sim, de uma característica comum com esta língua e com o galego. A perda do contraste que se operou entre os segmentos representados por -z e -s determinou que na escrita as palavras graves que antes apresentavam -z passassem a exibir um -s: Mendez > Mendes.

Sobre o autor

João Querido Manha (Alcanena, 1958) é um jornalista português, ex-diretor do Expresso e do Record. Colaborou com o Correio da Manhã, o Record, a TVI e a TSF. Como repórter, esteve sempre ligado ao desporto, tendo participado nos Jogos Olímpicos, nos Campeonatos do Mundo de Futebol FIFA ou no Mundial de Fórmula 1. É coautor da Crónica de Ouro do Futebol Português e atualmente comentador da TVI24.