Vírgula não! - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Vírgula não!
Vírgula não!
Situações em que a vírgula não deve ser usada

A vírgula é um pequeno sinal gráfico usado na escrita, que muitas dificuldades oferece a quem escreve. A frase «Vê lá se as vírgulas estão bem neste meu texto!», embora normalmente corresponda a um pedido que vai além de uma revisão da pontuação, não deixa de assinalar uma área da escrita que tantas dúvidas coloca.

É importante que se saiba que o uso da vírgula na frase não tem de ser problemático se se tiverem em mente alguns princípios básicos. Comecemos por rever alguns casos em que «vírgula não!»:

(i) «O Ministro, vai anunciar uma nova medida.»

Não se coloca vírgula entre o sujeito e o seu verbo porque estes constituintes têm grande proximidade sintática e, embora na oralidade se faça uma pausa antes do verbo, tal não equivale a uma vírgula porque esta não tem a função de assinalar as pausas da modalidade oral.

(ii) «O ministro leu, uma declaração ao país.»

Não se põe uma vírgula entre o verbo e os seus complementos, pois esta é contrária à proximidade que existe entre o verbo e os constituintes de que este necessita para complementar o seu sentido.

(iii) «Eu penso, que foi uma boa medida.»

A ideia de que se coloca uma vírgula antes de qualquer que é errada. Há que analisar caso a caso. Quando a palavra que é uma conjunção completiva, que introduz uma oração que completa o sentido do verbo, liga-se a este estreitamente, pelo que não há lugar a vírgula.

(iv) «Ocorre que, a medida não se aplica a todas as situações.»

Que, sendo conjunção completiva, vem seguido da oração que introduz, não havendo lugar a vírgula entre os constituintes, que se relacionam estreitamente do ponto de vista sintático.

(v) «As medidas, que se aplicam aos pensionistas são as mais faladas.»

Nunca se usa vírgula antes de uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva, uma oração que tem como função limitar/restringir a significação do antecedente. Neste caso, a oração relativa, ao incidir sobre o nome medidas, reduz a significação da palavra, que passa a referir apenas as medidas relacionadas com os pensionistas, deixando de fora todas as outras. A vírgula usa-se apenas com as orações relativas explicativas.

(vi) «A medida que, causou mais impacto foi anunciada no final.»

Que, sendo pronome relativo, vem seguido da oração que integra, sem lugar a vírgulas, até porque este pronome tem uma função sintática no interior da sua oração, estabelecendo normalmente uma relação de proximidade sintática com o verbo. No caso da frase apresentada, que é sujeito do verbo causar.

 

Saber quando não usar a vírgula não é difícil. Basta ter em dia alguns conhecimentos gramaticais básicos. Afinal, quem disse que saber gramática não servia para nada?

Sobre a autora

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.