Uma aula nos corredores do poder - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Uma aula nos corredores do poder
Uma aula nos corredores do poder
Uma gramática para o sucesso

Vamos conjugar o verbo verdade

− «Eu engano», «Tu deves dizer a verdade», «Ele tem de dizer a verdade» …

− Isso não está bem! Estás a conjugar tudo mal! Eu estou aqui para aprender e tu estás a confundir-me!

− Sabes porquê? Verdade não é um verbo.

− Ah, já percebi! Então, e o predicado «ser honesto», dá para flexionar?

− Claro! «Tu és honesto», «Ele é obrigatoriamente honesto».

− Mas, e a primeira pessoa do singular?

− Esta flexão é defetiva. Quando o verbo ser se junta ao adjetivo honesto, não flexiona na primeira pessoa.

− Parece que as palavras que denotam valores positivos têm todas muitos problemas.

− É a erosão linguística. Algumas palavras de tanto uso perderam-se ou gastaram-se. Aconteceu o mesmo a alguns princípios e valores.

− Então, e as palavras com uma semântica mais negativa? É possível, por exemplo, conjugar o verbo mentir?

− Obviamente. «Eu minto e tu não dás por nada», «Tu mentes e eu denuncio», «Ele mente e nada acontece».

− Mas, não estás a conjugar o verbo. Estás a construir frases!

− É mesmo assim. São as chamadas «regências obrigatórias». Quando conjugas o verbo, o resto é logo ativado.

− Estou a ver. Estes processos linguísticos parecem-me pouco éticos…

− Olha, a palavra ética é também muito curiosa. Ultimamente, dedicou-se à estilística e, associada à primeira pessoa, só aparece em construções antitéticas, do género «Eu não sou ético, mas finjo que sou».

− Percebo. E isso não acontece nas outras pessoas?

− Não, só na primeira. Se a frase estiver na segunda pessoa, gera-se preferencialmente uma coordenada conclusiva: «Tu não és ético, logo eu acuso».

− Parece uma gramática «à la carte»…

− Não, porque esta gramática não está acessível a qualquer um. Está publicada no Manual do Bom Poderoso e é uma obra que só é disponibilizada a quem chega ao poder. É muito útil para todos, mas os inexperientes e os corruptos são os que mais a consultam.

− Mas tu não estás no poder! Como sabes tudo isto?

− Sou assessor!

Sobre a autora

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.