Escolas do paraíso - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Escolas do paraíso

Trinta anos depois do 25 de Abril, não temos grandes razões para estar satisfeitos com o nosso progresso cultural. O analfabetismo diminuiu, a escola abriu-se, as manifestações artísticas multiplicaram-se, o programa editorial ampliou-se - mas a iliteracia real dos portugueses faz da alfabetização um mero índice estatístico e as opções oferecidas pelo ensino ressentem-se da quebra de uma formação de base sólida e carecem de um magistério habilitado. Por outro lado, a multiplicação das actividades culturais cria deploráveis confusões de qualidade e o recurso à indústria da cultura, para além dos casos que dela são indissociáveis, converte a experiência da criação artística em impressão massificada e acéfala de sessões equívocas, submetidas à primazia espectáculo. Veja-se, em exemplos a esmo, como uma sessão de lançamento de livros se substitui, na prática, à leitura desses mesmos livros, quando não se transforma em "show" ou jantar mundano; como se confunde a qualidade de um escritor com o volume das suas vendas; como as obras de arte se tornam trabalhos de serviço empresarial; como os organismos culturais patrocinam iniciativas de espavento descurando o património; como os grandes eventos do país, tais as "expos" ou capitais da cultura, secundarizam o desenvolvimento nacional efectivo e a qualidade de vida no quotidiano.

Tudo isto tem a ver, directa ou indirectamente, com o ensino e com a educação. As direcções discutíveis que se imprimem à orientação dos estudos, e vão de uma forma ou de outra irradiando em manifestações culturais, assentam numa perspectiva incerta de abertura do estudante ao Mundo e do modo de o habilitar à actuação que lhe possibilite tornar esse Mundo mais progressivo e mais justo. Um múltiplo debate em torno da educação torna-se necessário neste sentido, a tocar pontos decisivos em política e em cultura, e a implicar a reflexão de todos nós.

Um desses pontos é o da impreparação do indivíduo no domínio da sua língua materna. Saber ler e saber exprimir-se são faculdades que a alfabetização não proporciona, que o Ensino Secundário não desenvolve, e de que o Ensino Superior não cuida. E saber ler é a chave de tudo para o desempenho na vida quotidiana, seja o labor profissional (compreender o que se faz, e o bem e o mal do como se faz), seja o percurso da existência (a compreensão de si e dos outros, a rejeição das formas de alienação e delinquência, o civismo no comportamento) seja o desempenho comunitário (através do qual se deve ser um exemplo de comportamento para os outros, adoptando o exemplo dos outros também - e sabemos como os modelos para os jovens são hoje os que lhes são sugeridos no facilitismo, na vigarice e na corrupção, tornadas heróicas).

Mas parece que saber ler (decifrar códigos linguísticos, sinais de comunicação, a interpretação do Mundo) não interessa! E mesmo, para certas políticas e para certas programações culturais, quanto mais analfabeto, melhor! E andamos a contentar-nos com a ficção de uma acção cultural empenhada, cheia de programas, de actividades, de formação contínua, com muitos cursos de especialização para tudo e para nada, que resulta num atropelo convulsivo do indivíduo, quando a condição para a experiência cultural fecunda é o oposto disso: ministrar uma formação de base sólida e exigente, na escola (que é para isso que a escola serve), e dar ao indivíduo, na sua vida, a emparelhar com o seu trabalho e com o seu meio familiar, tempo, dar-lhe mesmo "tempo" - para o lazer, o prazer do vago, que permite a reflexão, suscita o desejo, dá azo à fruição cultural ampla e descondicionada, sem mimetismos sociais nem atavios mundanos.

Sabemos como nenhum sistema político gosta de dar isso ao indivíduo - tempo! Ao invés, o sistema enrola as pessoas em burocracias que empatam a vida, lhes suga a liberdade em trajectórias quotidianas absurdas. Ao sistema político interessa que a pessoa não pense e só com tempo se pensa e se aprende, só a vivência de uma duração própria e interior nos permite tentar perceber o que somos e desenvolver essa aprendizagem na relação cadenciada com os outros, com o ambiente, com a arte, com aquilo que de bom existe para nós, e que, céus!, a maioria dos cidadãos nem sonha que existe - e, no entanto, está à sua beira. Para muitos, ler um livro é coisa chata e aborrecida (porque o ensino assim a inculca), ouvir música elaborada é difícil (pois que educação musical temos nós?), estar só é, imagine-se, uma desgraça - e todos correm para companhias nem sempre estimulantes, para bares de aturdimento, para jantares de fastio, para centros comerciais de consumição da bolsa e de alheamento da alma - porque há quem tenha medo de encontrar o vazio de si, que ninguém ensinou a preencher ou que nenhuma experiência vivificante encantou.

Há um grande mal-entendido de base em tudo isto: é que se pretendeu transformar a escola que herdámos do salazarismo, que era de facto sinistra (nunca se poderá dizer o contrário), mas em vez de se banir o que nela era repressão, censura e hipocrisia, mantendo o que tinha de leccionação eficaz, acabou-se integralmente com o seu modelo, substituído por concepções demagógicas de antiautoritarismo, de criatividade a partir do nada, de pedagogia espontaneísta, de valorizações do coloquial e da busca do divertimento na aprendizagem que deformou a criança e o adolescente, tirando-lhe as imagens, os modelos, as estruturas, os conhecimentos e a base de valores e de segurança a partir da qual, só, pode exercitar-se e preparar a sua contestação. Pretendeu-se que a escola fosse um paraíso e não se curou das regras que até no paraíso uma organização transcendente impôs. Mas não só estes erros praticados lesam o indivíduo; o pior de tudo ainda são os preconceitos, os herdados e os adquiridos, e nomeadamente a miragem da supremacia tecnológica e o puritanismo do cientismo redutor, que, aliás, nem vejo perfilhado pelos grandes cientistas. Que a ciência é grande e nos fundamenta, nem vale a pena sublinhá-lo, ninguém o questiona; mas muita pequenez à sombra dessa grandeza vai medrando.

Repare-se na concepção tacanha dominante quanto ao ensino da Literatura e das Humanidades. Nem falo da castração que representa, na formação intelectual, a redução da leitura dos clássicos, crime de nefastas consequências contra o património; falo da condescendenciazinha em entender a Literatura como uma componente decorativa e obsoleta, como se o estudo da Literatura não fosse justamente a trave mestra da possibilidade do conhecimento na formação do indivíduo, a base de toda a educação, estética e científica, uma vez que esta assenta na comunicação e expressão dos diferenciados matizes expressivos da língua.

De uma vez por todas, entenda-se isto: a literatura é o estudo do tratamento estético da linguagem, e como tal confere ao indivíduo o entendimento integral e abrangente das várias formas de comunicação no quotidiano e fora dele. Não é apenas estudando a língua que o cidadão se habilita a praticar a comunicação informativa e expressiva, e por conseguinte a melhorar as suas circunstâncias de vida, a sua experiência humana e a produtividade do seu trabalho, que o realiza tanto mais quanto dele toma consciência. Ter consciência das coisas é justamente poder pensá-las e imaginá-las naquilo que são e no que poderiam ser, e essa conjectura dos possíveis, só a linguagem da ficção e da construção poética, na literatura e na arte, nos pode dar.

Em vésperas do balanço de Abril, as Letras, as Artes, as Ciências, o ensino que as faz vigorar na comunidade e a cultura que traduz na experiência a sua fruição, apelam a um debate que ajude a torná-las decisivas na qualidade de vida de que carecemos.

 

Fonte

Artigo publicado na revista "Actual" do semanário "Expresso", do dia 27-3-2004.

Sobre a autora

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 1941) é professora catedrática da Universidade de Lisboa e dedica-se ao estudo da Literatura Portuguesa e Francesa. Criou e dirigiu as revistas Ariane e Dedalus. Para além de ser membro de júris de prémios literários, como os da APE ou Camões, dirige a coleção António Lobo Antunes e Camiliana. Como crítica literária, colabora no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Da sua obra, literária e poética, destacam-se: Discursos do Texto (1977), Diário do Lago (2002) e Dicionário da obra de António Lobo Antunes (2008).