A vírgula nas orações relativas - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A vírgula nas orações relativas

Voltando à querela da vírgula de Saramago e ao último texto da dr.ª Maria João Matos, talvez que na frase «Uma língua que não se defende, morre», a oração relativa não tenha as características bem marcadas de oração restritiva. Vejamos as seguintes frases:

a) Uma língua que não se defende, morre.

b) Um homem que não se defende, morre.

Suponhamos a seguinte situação:

Fulano de Tal vai ser atacado com armas. Está em sítio em que não se pode defender, e nem sequer pode fugir. Em tal situação, podemos empregar a frase (b). Aquele se é um pronome reflexo: que não se defende = que não se defende a si próprio.

Mas na frase (a), a palavra se não é um pronome reflexo, porque uma língua não se pode defender a si própria. Tem de ter alguém que a defenda, que são os seus falantes. Esse alguém, pronome indefinido, é, na frase (a), o pronome se-indefinido, mas não reflexo, como vemos, por exemplo, na frase seguinte:

c) Aqui está-se bem.

Este se é pronome indefinido, porque é equivalente a alguém (pronome indefinido):

d) Alguém que esteja aqui está bem.

A oração relativa da frase (a) está a mostrar, a explicar o motivo por que uma língua morre: porque não há alguém (=se) que a defenda, isto é, alguém ou alguém em número suficiente, que a defenda.

Em conclusão: a oração relativa da frase a) não parece que seja restritiva, mas sim explicativa. É por isso que me parece que deve estar entre vírgulas.

Mesmo que a consideremos restritiva, não é erro estar entre vírgulas. Transcrevo o que ensina a «Guia Alfabética de Pontuação» de Rodrigo de Sá Nogueira, que foi professor da Faculdade de Letras (fim da pág. 79):

« Não obstante isso, quando uma oração relativa de que constitui uma expressão intercalada, a forma que é precedida de vírgula. Ex.: “Vi o rapaz que te deu um livro”: “O rapaz, que te deu um livro, chegou ontem do Brasil”.»

A oração principal poderá ser independente, mas compreende-se que uma língua morre, explicando o porquê dessa morte futura.

Ela morre:
quando ninguém a defende
porque ninguém a defende
se ninguém a defender.

É evidente que este ninguém é um pronome indefinido, que está a substituir o indefinido se, que não significa, neste caso, a «ausência absoluta», mas também a «quantidade não suficiente».

Por tudo isto me parece que o correcto seja classificarmos a tal oração como relativa explicativa e não como restritiva.

Vejamos agora a frase de Saramago:

e) Hoje, uma língua que não se defende, morre.

Nesta frase, não há nenhuma vírgula a separar o sujeito do predicado. Julgo que se refere à segunda vírgula, em defende. É evidente que o sujeito de morre não pode ser uma língua que não se defende, porque a expressão «uma língua» pertence a outra oração. Há aqui duas orações:

1 – «Hoje, uma língua morre» – principal.

2 – «que não se defende» – subordinada à anterior, relativa adjectiva.

Cada uma destas orações tem o seu sujeito e o seu predicado.

Como sabemos, o sujeito é a palavra (ou o grupo de palavras) que indica a pessoa, o animal ou a coisa a que se refere a afirmação.

Parece que inclui na função de sujeito a oração relativa. Isso não pode ser, porque cada oração tem a sua palavra ou grupo de palavras a desempenhar a função de sujeito.

O sujeito da 1ª oração é, como nós sabemos, uma língua.

O sujeito da 2ª é o pronome indefinido se.

Podemos dizer que a oração relativa é expansão do sujeito, mas não quanto a sintaxe; sim, quanto ao significado do sujeito.

Para mim, tanto é correcta a virgulação de Saramago, como a que apresentei, porque a oração relativa não parece explicativa logo à primeira vista, porque não é fácil interpretar o se como pronome indefinido.

Obs. – A gramática brasileira mencionada [Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Editora Lucerna, Rio de Janeiro)] é muito boa. Mas é conveniente repararmos no seguinte: a nomenclatura gramatical brasileira nem sempre é igual à nomenclatura gramatical portuguesa. É claro que as diferenças são muito poucas.

Sobre o autor

José Neves Henriques (1916 - 2008), professor de Português; consultor e membro do Conselho Consultivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Antigo professor do Colégio Militar, de Lisboa; foi membro do Conselho Científico e diretor do boletim da Sociedade da Língua Portuguesa; licenciado, com tese, em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa; foi autor de várias obras de referência, entre as quais Comunicação e Língua Portuguesa e A Regra, a Língua e a Norma (Básica Editora).