Antologia // Portugal A nossa magna lingua portugueza * A nossa magna lingua portugueza De nobres sons é um thesouro. Seccou o poente, murcha a luz represa. Já o horizonte não é oiro: é ouro. Negrou? Mas das altas syllabas os mastros Contra o ceu vistos nossa voz affoite. O claustro negro ceu alva azul de astros, Já não é noute: é noite. 26-8-1930 Fernando Pessoa · 4 de novembro de 2007 · 5K
Antologia // Brasil No descomeço era o verbo No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. E pois. Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio. Manoel de Barros · 29 de outubro de 2007 · 8K
Antologia // Brasil O verbo for Escrita ainda em vida do autor, esta saborosíssima crónica sobre uma prova oral... «bestíssima» foi publicada no jornal "O Globo" (e em outros jornais) a 13 de setembro de 1998, integrando o livro "Conselheiro Come». João Ubaldo Ribeiro · 13 de outubro de 2007 · 12K
Antologia // Brasil A Camões * Quando n'alma pesar de tua raça a névoa da apagada e vil tristeza, busque ela sempre a glória que não passa, em teu poema de heroísmo e de beleza. Génio purificado na desgraça, tu resumiste em ti toda a grandeza: poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça o amor da grande pátria portuguesa. E enquanto o fero canto ecoar na mente da estirpe que em perigos sublimados plantou a cruz em cada continente, não mor... Manuel Bandeira · 14 de julho de 2007 · 5K
Antologia // Portugal Um poeta na turma Ainda não disse que tenho um Poeta na turma. É o Romão. Faz o possível por "parecer" Poeta, pela maneira como se senta, pelo tom de voz, e até pelo reclamo falado que de si faz: assina "o Poeta"; acha naturalíssimo que eu lhe chame "ó Poeta" e diz aos outros que se não devem admirar de que haja Poetas que escrevem prosa: «Eu também sou Poeta e faço muitas redacções.» Tenho-lhe dito que é preciso ser Poeta princip... Sebastião da Gama · 3 de julho de 2007 · 3K
Antologia // Portugal Má consciência O adjectivo Dá-me de comer.Se não fora eleO que houvera de ser?(...) Alexandre O'Neill · 22 de junho de 2007 · 4K
Antologia // Angola Poesia Necessária 1De palavras novas também se faz paísneste país tão feito de poemasque a produção e tudo a semearterá de ser cantado noutro ciclo.2É fértil este tempo de palavrasem busca do poemaque foge na curva das palavrasusadamente soltas e antigasdistantes das verdades dos riosdo quente necessário das brasasdo latejar silencioso das sementesdentro da terraquando chove.3Proponho um verso novopara as laranjas (por exemplo) matinaise os namoradoscom que havemos de encher todos os diasos mercados.4 Manuel Rui · 8 de junho de 2007 · 6K
Antologia // Portugal Há palavras que nos beijam Poema de Alexandre O'Neill (Lisboa 1924 – Lisboa, 1986), transcrito do livro No Reino da Dinamarca, editado em 1958. Alexandre O'Neill · 24 de maio de 2007 · 8K
Antologia // Portugal Invenção da escrita Com as minhas mãos calejadas e fortesaprendi a trabalhar novos materiais:depois da pedra veio o bronze,depois da madeira o aço, o barro e o ouro.Eu não parava de crescerem tudo aquilo que aprendia, eu não parava de me deslumbrarcom tudo aquilo que descobria e ainda me faltava aprendertanta, tanta coisa. Um diadisse para comigo: "O que aprenderestambém deves ensinar",e foi assim que fiz dos filhosmeus alunos e dos alunosmeus her... José Jorge Letria · 11 de maio de 2007 · 4K
Antologia // Portugal Colagem Palavras,sereis apenas mitossemelhantes ao mirtodos mortos?Sim,conheçoa força das palavras,menos que nada,menos que pétalas pisadasnum salão de baile,e no entantose eu chamassequem dentre os homens me ouviriasem palavras? Carlos de Oliveira · 10 de abril de 2007 · 4K