Linguistas brasileiros criticam publicação de VOLP PB - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Linguistas brasileiros criticam
publicação de VOLP PB

Críticas à iniciativa da Academia Brasileira de Letras no lançamento do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, já com a nova grafia do Acordo Ortográfico, insertas nesta notícia da Folha de São Paulo, de 22 de Março de 2009.

 

Lançada [no dia 19 de Março de 2009], a nova edição do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) não deveria ser publicada agora, sem que os outros países tivessem sido consultados, dizem linguistas. A publicação já traz a grafia nova de palavras alteradas pelo Acordo Ortográfico, que entrou em vigor no início deste ano.

De 9 dos 17 membros da Colip (Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa, ligada ao Ministério da Educação [do Brasil]) ouvidos pela Folha, 6 criticaram a posição da ABL (Academia Brasileira de Letras) de publicar a obra sem discutir lacunas do Acordo com as outras nações lusófonas.

Na opinião desses especialistas, Portugal pode questionar a escolha da grafia de algumas palavras pela ABL. O hífen, por exemplo, gerou muitas dúvidas, uma vez que o Acordo não era claro sobre a sua utilização, ou seja, a ABL decidiu internamente a grafia de muitas palavras e expressões, como coerdeiro, sem hífen e sem a letra h, embora o texto oficial indicasse o uso de co-herdeiro.
«Não entendo como um acordo internacional tenha sido interpretado como sendo de execução de um só país», diz Gilvan Müller de Oliveira, professor de linguística da UFSC e diretor do Ipol (Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística).

José Luiz Fiorin, professor da USP e autor de livros sobre linguística, tem opinião semelhante: «O fato de o Brasil publicar um Vocabulário Ortográfico dá a impressão de que ele está querendo governar a implantação do Acordo.»

Para Fiorin, a publicação do VOLP pode gerar um mal-estar com os outros países. «O Brasil deveria estar atento para isso, não levantando mais suscetibilidade nenhuma», diz, lembrando o fato de alguns portugueses terem reclamado das mudanças provocadas pelo Acordo — enquanto apenas 0,5% do vocabulário brasileiro foi modificado, em Portugal a mudança chegou a 1,5%.

O professor diz que «não é possível que alguém ache que se trata de um vocabulário definitivo, uma vez que o Acordo é explícito» em relação à criação de um «vocabulário ortográfico comum».

Segundo Godofredo de Oliveira, presidente da Colip, «o entendimento é que este vocabulário é a contribuição brasileira para o Volp, o que implica dizer também que, se lá na frente houver alguma pequena adequação, a academia deve estar pronta para fazê-la».

Evanildo Bechara, coordenador da Comissão de Lexicografia e Lexicologia da ABL e coordenador da elaboração do Volp, argumenta que, «se os portugueses seguirem o Acordo que eles assinaram, o vocabulário será igual».

Sobre a escolha de coerdeiro, sem hífen e sem h, e de palavras cuja grafia o texto do Acordo não esclarece, ele diz que a tradição foi levada em conta. Segundo Bechara, «nenhum ponto de vista adotado pela Academia é aleatório» e, caso Portugal questione a posição da ABL, a academia irá «defender o ponto de vista dela».

Sobre uma reunião que a Colip quer fazer com os outros países, Bechara diz não entender «como é que vão fazer reuniões para modificar aquilo que está de acordo com o que ficou decidido num Acordo». «Olha, acontece o seguinte: se partíssemos do pressuposto de que não deveríamos fazer o Vocabulário agora, porque dentro de algum tempo haveria alterações, o homem estaria ainda no tempo das cavernas.»

Paulo Coimbra Guedes, da Colip e professor da UFRGS, concorda com Bechara. Ele diz que a ABL fez certo ao tomar a dianteira e lançar o VOLP. «Não é culpa nossa se a gente tem muito mais habitantes que eles e se a gente é economicamente muito mais importante», diz.]

O VOLP custa R$ 120. A ABL ainda não sabe quando ele estará disponível para consulta na Internet.

Fonte

in Folha de São Paulo, de 22 de Março de 2009.

Sobre a autora

Luisa Alcantara e Silva é jornalista da Folha de São Paulo.