Bastidores de acordos de 1911 e 1945 Uma história com 20 anos... ou com um século - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Bastidores de acordos de 1911 e 1945
Uma história com 20 anos... ou com um século

A discussão sobre o texto e a necessidade do Acordo dura há 20 anos, num pequeno historial assinado pela jornalista Alexandra Prado Coelho, no Público de 30 de Dezembro de 2009. Ver ainda: Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação? + Motivação no Brasil: imprensa já aplica desde Janeiro de 2008 

 

O Acordo Ortográfico que entrou em vigor em Portugal (embora ainda não esteja a ser oficialmente aplicado) e que está em vigor no Brasil desde o início de 2009 é, por estranho que pareça, conhecido como Acordo Ortográfico de 1990. É uma saga com 20 anos.

Mas para perceber como se chegou aqui é necessário recuar até ao início do século XX. Ou, já agora, um pouco mais, até ao século XVI.

Quando se começou a escrever a língua portuguesa, a tendência foi para que as palavras representassem foneticamente os sons. Mas na segunda metade do século XVI, numa altura em que o português sentia a necessidade de se afirmar perante o castelhano, tentou-se legitimar a língua dando-lhe um cariz mais latino e optando por uma ortografia mais etimológica (a partir da origem das palavras). Foi nessa altura que, lembram Manuel Tavares e Maria Manuel C. Ricardo na Revista Lusófona de Educação, João Franco Barreto publicou a Ortografia da Língua Portugueza. Era o tempo é que "é" se escrevia "he", "plurais" eram "pluraes", "podem" tinha acento no "o", e "bom" era "bõ".

Durante os séculos seguintes permaneceu a polémica entre ortografia etimológica e fonética. E foi assim que se chegou a 1911. A República fora implantada no ano anterior e António Dias Coelho, chefe do serviço de revisão da Imprensa Nacional, denuncia o "estado de incoerência ortográfica". Decide-se fazer uma Reforma Ortográfica. Foi, escrevem os autores do texto, uma reforma profunda e que "modificou completamente o aspecto da língua escrita, aproximando-o muito do actual". Desapareceram as consoantes dobradas (belleza), os "ph" (pharmacia), "th" e "rh". Fez-se um "retorno parcial à ortografia fonética da Idade Média". Houve protestos em Portugal, mas foi no Brasil que houve uma rejeição total de uma reforma que tinha sido feita sem o país com maior número de falantes de português. Tinham começado os problemas que um século mais tarde ainda estamos a tentar resolver.

Mas a reforma de 1911 manteve muitas consoantes mudas e fórmulas que os críticos vêem como cedências à etimologia. E levou ao afastamento entre as ortografias de Portugal e do Brasil, que manteve a antiga. Houve uma tentativa de acordo em 1931, por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, mas falhou.

Em 1943 é estabelecido entre os dois países um Formulário Ortográfico e dois anos depoisPortugal adopta um novo Acordo Ortográfico. Apesar de ter a assinatura da Academia Brasileira de Letras, o acordo nunca foi aplicado no Brasil. Entrou em vigor em Portugal e nos restantes países de língua oficial portuguesa e cavou o divórcio ortográfico entre os dois lados do Atlântico. É esse acordo que o actual substitui.

O debate foi sempre marcado pela questão das cedências: seria Portugal que estava a fazer cedências ao Brasil ou vice-versa? Alguns artigos que saíram recentemente na imprensa estrangeira sobre o acordo fazem uma leitura simples. "O império contra-ataca", descreve a Associated Press; e Eric Hewett, um linguista baseado em Roma citado pelo Times online, considera "extraordinário que uma potência colonial europeia mude a sua ortografia para se aproximar da de uma colónia". Mas, conclui o mesmo artigo, foram a globalização e a Internet que tornaram a decisão "incontornável": "A natureza da Internet e a importância de motores de busca como o Google significam que a grafia é crucial: a lei das percentagens diz-nos que menos pessoas irão encontrar a Optimo Global Shipping Co em Lisboa do que a Otimo Global Shipping Co em São Paulo". 

Fonte

Público, 30 de Dezembro de 2009

Sobre a autora

Alexandra Prado Coelho (Lisboa, 1967) é uma jornalista portuguesa que exerce as suas funções no jornal Público.