DÚVIDAS

ARTIGOS

Controvérsias // A língua e vida política

O temível ataque dos sotaques

Sobre uma perceção política das acampadas no Porto e em Lisboa

«Nuno Melo terá tido, certamente, sotaque de Famalicão antes de vir para Lisboa e de o ter trocado pelo sotaque da capital, certamente mais adequado à carreira política que desenvolveu.»

Esta semana* destacou-se o sisudo e austero Ministro Nuno Melo, cuja ação passa, em geral, despercebida, certamente por ser, ao mesmo tempo, tão determinante, tão ténue e tão impercetível. Num pequeno vídeo que circula no Youtube, extraído de uma declaração à Renascença, em dois minutos e cinco segundos, de uma assentada, Nuno Melo demonstrou que, e cito, «o que se passa na habitação é um problema, obviamente importante, é real, preocupa as pessoas […]», mas que, e volto a citar, «há uma razão primeira pela qual acontece neste momento e com esta intensidade», razão que ele liga, cito, «diretamente a um descontrolo absoluto dos fluxos migratórios no país». E, aproveitando a embalagem, ainda explicou a lei do mercado e referiu umas tais «medidas transversais» que o governo terá estado a tomar… (Neste ponto, tenho de confessar, perdi o fio condutor da declaração e até pensei estar a ouvir Donald Trump a falar em português.) Em seguida, Nuno Melo discorreu sobre a natureza das boas e das más manifestações, cito, «em muitos casos instrumentalizadas por movimentos extremistas», invocou o estado de direito e rematou, afirmando que, cito: «no que tem que ver com Portugal, já agora, achei particularmente curioso, mas de todas as vezes que eu liguei a televisão, ou quase todas as vezes, quem aparecia de porta-voz  dos movimentos era alguém que não tinha nascido em Portugal, falava com sotaque brasileiro, falava com sotaques de outras paragens, o que mostra uma de duas coisas: ou a relação que é de facto direta entre esse descontrolo e as manifestações ou uma instrumentalização que, em muitos casos, vem também de fora e que tenta potenciar o que, felizmente, em Portugal, para já não tem vingado…»

Não me deterei sobre as muitas questões que esta declaração suscita (como a de quais canais de televisão Nuno Melo andou a ver). Também não me deterei sobre a explicação dada para a crise da habitação, nem, ainda, sobre a xenofobia subjacente ao discurso e a suspeição que levante de intriga internacional. O que mais me chamou a atenção foi, mesmo, o poder dos sotaques.

Um sotaque é uma forma particular de pronunciar a fala, seja de um indivíduo ou de falantes de determinada localidade, região ou país. O sotaque permite identificar o local onde o falante reside ou residiu, o seu estrato socioeconómico, a sua classe social, ou até a sua etnia. Quando a língua que fala não é a sua língua materna, é possível identificar, pelo sotaque, as marcas dessa língua materna, pois elas transparecem na sua fala. Além da pronúncia dos sons, o sotaque dos indivíduos manifesta-se também na prosódia, ou seja, na entoação do discurso, na musicalidade da fala. O sotaque é sempre do outro, marca a sua diferença, a sua alteridade. Ninguém tem sotaque, ou melhor, ninguém ouve o seu próprio sotaque; é sempre o outro que o tem. O certo é que todos temos um sotaque particular, até os lisboetas das classes mais letradas quando usam a língua em registo formal. Nuno Melo terá tido, certamente, sotaque de Famalicão antes de vir para Lisboa e de o ter trocado pelo sotaque da capital, certamente mais adequado à carreira política que desenvolveu.

Quais estudos, quais estatísticas, quais dados científicos? Nuno Melo demonstrou uma incomparável capacidade para, num ápice, detetar as indiscutíveis causas das manifestações, apontar o dedo aos culpados e, claro, desmontar a intriga internacional na sua génese. E tudo isto, imagine-se, graças à sua perceção de sotaques, enquanto provavelmente vai fazendo zapping. Eu só não entendo como este tipo de político, que é capaz de aplicar tamanha perspicácia na análise dos problemas, na prática, não só não resolve os já existentes, como, pelo contrário, consegue criar muitos mais.

* N. E. – A autora refere-se à semana de 18 a 24/10/2026.

Fonte

Apontamento incluído na emissão de 01/10/2026 do programa Páginas de Português (RTP Antena2) e aqui partilhado com autorização da autora.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa