Irão vs. Pérsia
... e Pérsia vs. Irão
Desde que foi desencadeada a guerra com o Irão em 28/02/2026, o nome deste país tem andado nas primeiras páginas dos jornais e é tema destacado nos noticiários e comentários que se multiplicam nos canais de informação audiovisual. Muito se diz e escreve, portanto, sobre o Irão, e retoma-se uma velha questão: porque se emprega a forma Irão, e não Pérsia, nome que ocorre sempre que se refere a história na Antiguidade e na Idade Média? A pergunta, como veremos, acarreta outra a questão de saber até que ponto se tem justificado usar um nome geográfico pelo outro.
A forma Irão é a adaptação que se fez em Portugal do nome original do país em persa: ایران, que se translitera como irân. O nome com a forma Irão já figura no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de 1940, mas no Brasil fixou-se Irã, com vogal nasal simples. As formas divergentes Irão e Irã difundiram-se a partir de 1935, quando o governo de Reza Pahlavi (1878-1944), que se tornou xá (imperador) em 1925, comunicou que o país deveria passar a ser chamado "Irân", rejeitando os nomes correntes na Europa, a maioria cognatos do latim Persia, como é o caso do português Pérsia (ver Paulo Correia, "Irão — apontamentos para ficha de país, A Folha, N.º 78, verão de 2025, pp. 13-18, publicação de Miguel Castelo-Branco no Facebook, 22/03/2026 e José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 2003).
Com efeito, em português, as regiões que integram o país hoje referido como Irão eram conhecidas tradicionalmente pelo nome Pérsia, do latim Persia, nome que os Romanos receberam dos Gregos, que diziam Persis. Esta última palavra não é criação helénica, mas, sim, o resultado da adaptação de persa antigo Parsa, que tem como cognatos o persa moderno Fars, o hebraico Paras e o arábico Faris (cf. em inglês, Etymonline). Sucede, porém, que, em persa, Parsa e Fars denominam apenas uma região no sul do Irão, com capital em Xiraz (esta é forma vernácula de Shiraz, de uso internacional e grafia anglicista; cf. s. v. Rebelo Gonçalo, Vocabulário da Língua Portuguesa, 1966). Sendo assim, percebe-se melhor que há quase 100 anos o Estado iraniano tenha requerido a adoção de Irân, nome com grande tradição, pelo menos, desde os tempos dos Sassânidas, a dinastia persa que reinou entre cerca de 225 e 651 e sucumbiu com a conquista árabe.
Acrescente-se que Pérsia e os seus cognatos noutras línguas funcionam como exónimos ou, por se tratar de um nome geopolítico, como exotopónimos; ou seja, na perspetiva dos iranianos, trata-se de um nome estrangeiro, morfológica e foneticamente distinto da palavra pela qual se referem ao seu próprio país (endónimo ou endotopónimo) e que foi aportuguesado das duas maneiras antes mencionadas, Irão e Irã. Contudo, como se infere do atrás exposto, a língua dos iranianos designa-se em português por persa, e não por iraniano.
Por fim, uma curiosidade à volta de Irão: o nome terá evoluído de uma forma flexional do persa médio (período linguístico coincidente com a dinastia sassãnida), de Ērān, «dos Iranianos», subentendendo «terra» – «(terra) dos Iranianos» –, o genitivo de ēr-, «iraniano». Este, por sua vez, evoluiu do persa antigo ariya- (airya-, no avéstico, modalidade escrita), «iraniano», que vem do from Indo-Iranian *arya- ou *ārya-, um endónimo que talvez significasse «compatriota» e que teria também aceção encarecedora (cf. s.v. Etymonline, José Pedro Machado, op. cit. e Dicionário Houaiss). E daqui chegamos até ao nome e adjetivo ariano, cujo uso, na primeira metade do século XX, adquiriu perigosa carga mítica e política (ver aceção 3 do adjetivo ariano no dicionário de língua portuguesa da Infopédia).
Agradecimentos ao consultor Paulo J. S. Barata por sugerir o tratamento deste tema e pela indicação do apontamento de Miguel Castelo-Branco acima mencionado. Na imagem, relevo que representa Artaxes I a receber o anel da realeza das mãos de Aúra Masda, em Naqsh-i Rustam, no Irão. Crédito: Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Naqsh-i_Rustam).
