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O nosso idioma // Léxico

Essa palavra existe? E por que existe?

Sobre o que faz o uso correto das palavras

Frequentemente, deparamo-nos com esse questionamento sobre alguma palavra do dia a dia. Por exemplo, será que existe a palavra "teclação" (do ato de teclar)? Uma breve busca no VOLP nos mostra nenhum resultado, o que leva muitos a pensar, automaticamente, que essa palavra não existe. Na percepção deste autor, isso é um passo bastante precipitado para definir a existência de uma forma.

Chomsky (1981, 1986 e posteriores) discute a noção de gramaticalidade. Algumas formas linguísticas são simplesmente impossíveis, ou seja, não são geradas pelo nosso expediente computacional sintático. Essa ideia é traduzida, no âmbito da morfologia, pelo conceito de condição de produtividade (Basílio, 2002; Rocha, 2008). Por exemplo, o sufixo -vel só se anexa a verbos; anexá-lo a um substantivo levará a uma forma não produzida:

(1)    amor > *amorível
(2)    doce > *docível

Então, estamos distinguindo aqui, inicialmente, formações morfológicas possíveis e impossíveis (ou gramaticais e agramaticais). Porém, nem todas as formas possíveis são necessariamente utilizadas. Esse é o conceito de inércia morfológica (Rocha, 2008): algumas formações não são usadas simplesmente porque os falantes não encontraram motivações fortes o suficientes para empregarem-no na fala corrente. Um exemplo é “melanciada”: é uma forma possível para designar uma “bebida de melancia”, mas não é uma forma institucionalizada (não é encontrada no VOLP, por exemplo).

Mesmo que excluíssemos as formas agramaticais e aquelas que estão sujeitas à inércia, ainda não chegaríamos às formas registradas nos dicionários, porque todo registro linguístico escrito passou antes pelo crivo indispensável da fala. As palavras primeiro são usadas na fala e, depois, registradas, institucionalizadas, dicionarizadas. Esse processo é demorado, e depende de que se perceba que aquela palavra, antes emergente, já integra o nosso léxico comum.

A ideia de «léxico comum» é difícil de delimitar, porém apresento alguns exemplos. Podemos considerar dois grandes tipos de léxico que se distinguem do comum: o vulgar e o especializado. O léxico vulgar é aquele das palavras emergentes, que foram recém-criadas e ainda estão em processo de estabilização. A maioria das palavras desse léxico acaba caindo no ostracismo depois de algum tempo, e nunca se institucionaliza. Há não muito tempo, aqui no Brasil, era muito comum a forma demorou (usada para aceitar um convite). Depois houve vários substitutos, como «pode crê», «pode pá» e, mais recentemente, «fechou».

Uma palavra “sobrevivente” do léxico vulgar que foi, posteriormente, institucionalizada é covid. Há alguns anos, essa palavra sequer era utilizada, uma vez que não havia razão para tal. Por algum tempo, ela era vulgar e precisou se estabilizar.  Hoje, já é amplamente dicionarizada.

Por outro lado, no léxico especializado há termos técnicos específicos de áreas técnico-científicas.  Por exemplo, a forma fibromialgia não está registrada no VOLP, embora seja uma síndrome clínica conhecida por esse nome desde a década de 70. Isso não significa, certamente, que essa palavra não exista: ela apenas pertence a um léxico que não se considera comum aos falantes da língua.

Assim, a noção de «léxico comum», que engloba as palavras de fato institucionalizadas e registradas, é constituída das palavras que se consideram comuns, de uso generalizado na língua portuguesa, e as palavras correlatas a essas. Além disso, o registro dicionarístico dessas formas demanda tempo e estabilização.

Portanto, não encontrar uma forma no VOLP, no VOC ou nos dicionários1 é um diagnóstico de que essa forma (i) de fato não existe, ou (ii) ainda está em processo de institucionalização, (iii) pertence a um léxico vulgar, volátil, ou (iv) pertence a um léxico hiperespecializado. O erro, então, é desconsiderar que as formas em (ii) também existem, mas ainda não tiveram tempo de ser registradas.

Para responder, então, à pergunta do título, eu procedo da seguinte forma. Se a palavra está nos dicionários, no VOLP ou no VOC, ela existe.  Se não está lá, procuro no Corpus do Português. Se a palavra tem uma alta frequência de uso, atestada em diferentes fontes de diferentes regiões e temáticas, então essa palavra também existe, mesmo que ainda não esteja dicionarizada.

Fontes:
Basílio, M. (2000). Teoria Lexical. São Paulo: Editora Ática.
Chomsky, N. (1981). Lectures on Government and Binding. Dordrecht: Foris.
Chomsky, N. (1986). Knowledge of Language: its nature, origin and use. New York: Praeger.
Rocha, L. C. de A. (2008). Estruturas morfológicas do português. São Paulo: WMF Martins.



1 Na verdade, isso também não é verdade absoluta se considerarmos que também existem formas que se extinguem com o tempo e, mesmo dicionarizadas, entraram em desuso, ou seja, elas estão em processo de “desdicionarização”. Vamos ignorar esses casos para os efeitos deste texto.

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