Sentidos do verbo temperar, a pronúncia de «às avessas», o último Cuidado com a Língua! (no veterinário) e o amor pelo adjetivo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sentidos do verbo temperar, a pronúncia de «às avessas», o último Cuidado com a Língua! (no veterinário) e o amor pelo adjetivo
Sentidos do verbo temperar, a pronúncia de «às avessas»,
o último Cuidado com a Língua! (no veterinário) e o amor pelo adjetivo
Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa 183

1. Os sentidos das palavras atêm-se aos usos e são os usos que lhes asseguram a vitalidade ou lhes ditam o esquecimento. Esta ação, associada aos efeitos da própria temporalidade ao incidir sobre a língua, leva a que certos sentidos que já tiveram momentos de uso pleno se tornem opacos e distantes dos falantes.  É o que parece motivar a questão relacionada com a possibilidade de outros sentidos do verbo temperarque não o de "condimentar a comida". Para além desta, outras respostas estão disponíveis no Consultório. Entre elas, pergunta-se se o verbo pronominal questionar-se pode ser complementado por um constituinte introduzido por como. E no caso do verbo adaptar-se, qual a função sintática do pronome -se? Neste espaço, esclarece-se ainda a pronúncia de avessas na expressão «às avessas» e explica-se um caso de crase numa cantiga galego-portuguesa. 

2. Uma ida ao veterinário cria o contexto para o último programa da 10.ª série do magazine Cuidado com a Língua!, num episódio que destaca a origem de palavras como trela ou veterinário e onde se recordam algumas expressões que incluem nomes de animais. Será ainda entre animais que se encontrará um pretexto para passar em revista a flexão do tão maltratado verbo intervir (no  primeiro canal da RTP, na quarta-feira, dia 13 de novembro de 2019, depois da 21h00*).

* Hora oficial de Portugal continental – ficando  este e os demais  programas disponiveis  via RTP Play

3. Na rubrica Correio, regista-se uma mensagem de descontentamento de um consulente relativamente ao artigo "10 expressões racistas que deveríamos tirar do nosso vocabulário" (transcrito do portal brasileiro Universa) e a resposta do Ciberdúvidas. 

4. A classe do adjetivo tem, desde sempre, mantido uma relação atribulada com os escritores. Se houve quem honrasse o adjetivo como um deus capaz de expressar todos os matizes da realidade, do pensamento e do sentimento, outros houve que o declararam proscrito e buscaram a pureza da linguagem liberta dos excesso barrocos atribuídos a esta classe de palavras. O escritor e jornalista brasileiro Nelson Rodrigues, por seu turno, considerou, desde o início da sua escrita, inclusive a jornalística, que a abolição do adjetivo pela imprensa «castrou emocionalmente» os acontecimentos e, nos seus textos, explorou à exaustão as potencialidades das palavras pertencente a esta classe, em frases marcadas pela imaginação, pelo inesperado e excêntrico e, por vezes, pelo mau gosto. Também amante das potencialidades do adjetivo foi Jorge Luís Borges, poeta, escritor e crítico literário argentino. É esta semelhança na atitude perante o adjetivo que leva o diplomata brasileiro André Chermont de Lima a aproximar os dois escritores que, não tendo aparentemente qual relação, partilham esta perspetiva da escrita (artigo originalmente publicado na revista brasileira Estadão, que aqui reproduzimos, com a devida vénia). 

5. Julia Kristeva, linguista, filosofa, psicanalista e crítica literária franco-búlgara, uma das figuras centrais do estruturalismo, sendo autora da obra seminal Semiótica (1969), onde trabalha a teoria da significação ligada ao funcionamento textual, numa perspetiva histórica, recebeu no passado dia 10 de novembro o Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade Católica Portuguesa. A propósito da sua vinda a Portugal, Julia Kristeva concedeu uma entrevista à Revista do Expresso, na qual, entre muitos temas, refletiu sobre a linguagem como forma de moldar o pensamento, tendo afirmado a este propósito: «Não existe outra maneira de pensar. Pensamos pela linguagem e mesmo quando não falamos por meio da linguagem e nos exprimimos por meio de emoções ou por gestos, imagens ou sons, essa é uma translinguagem. O ser humano tem esta grelha que o constitui e a partir da qual encontra as linguagens plurais que são translinguísticas e que permitem à linguagem sair da sua estrutura. Mas enquanto pensamos e estamos na linguagem, também a transformamos. O pensamento está dentro e fora da linguagem. E ele inova, é como um renascimento.» (entrevista completa aqui).

6. A formação do plural dos nomes é, por vezes, uma autêntico quebra-cabeças, situação que dá o mote a um apontamento da lexicografa Ana Salgado, que apresenta uma breve sistematização das regras de flexão das diferentes possibilidades de composição de nomes (divulgado no sítio eletrónico Gerador). 

7. Damos destaque a alguns eventos relacionados com a língua: 

— A criação da Cátedra José Saramago pela Universidade de Sveti Kliment Ohrisdki, em Sófia, na Bulgária; e

— A criação de bolsas de mérito, atribuídas por Macau a alunos lusófonos e do sudoeste asiático.  

8. Celebra-se nesta data, 11 de novembro, o Dia de São Martinho, sendo tradição fazer-se um magusto, no qual se assam castanhas nas brasas da fogueira e se bebe água-pé ou jeropiga. No Ciberdúvidas, podemos reler vários artigos relacionados com o tema: «Castanha», «Água-pé», «A propósito de jeropiga», «Jeropiga, de novo», «Magusto». São também variados os provérbios relacionados com esta época: «no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho», «dia de São Martinho, fura o teu pipinho», «dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho», «pelo São Martinho, todo o mosto é bom vinho», «por São Martinho, semeia fava e linho», «se o inverno não erra caminho, tê-lo-ei pelo São Martinho».