A vírgula, orações de infinitivo, «"celebrar" uma guerra», veem-se, lincar e uma revista de divulgação linguística
1. A vírgula é tema recorrente nestas páginas, onde, no artigo de 19/11/2019, a linguista e consultora Carla Marques observava: «Se as situações em que a vírgula não deve ser usada são, por vezes, complexas, os contextos em que esta deve ser usada não o são menos». Apesar de tudo, trata-se de uma área da pontuação sempre na ordem do dia, e, em "Ciberdúvidas Responde" (61.º episódio), Carla Marques volta às vírgulas que são obrigatórias (ou quase) e dedica-lhes um apontamento repleto de exemplos. Em "O Ciberdúvidas Vai às Escolas", retoma-se o 2.º episódio desta rubrica em vídeo, para falar do que é um predicativo do sujeito e dos verbos que o selecionam.
2. Uma pergunta do Brasil incide sobre certas incompatibilidade entre infinitivo flexionado e os pronomes pessoais átonos. Será gramatical uma frase como «dei-te o livro para pore-lo na estante»? Não será mais correto «para o pores na estante»? A resposta, dada na perseptiva tanto do português brasileiro como na do português europeu, faz parte do conjunto de dúvidas que, entre 23 e 27/02/2026, foram atualizando o Consultório.
3. Em Portugal, os media deram relevo aos quatro anos que a Guerra da Ucrânia completou em 22/02/2026. Vários foram os noticiários e os comentários que referiram o funesto aniversário, mas daí a dizer-se que o rebentar de um conflito armado seja ocasião que se celebre redunda numa falta de propriedade vocabular. Foi o que se leu num oráculo do canal de televisão NOW, em 23/02/2026: «Ucrânia celebra quatro anos de guerra amanhã.» Para uma frase adequada, propõe-se outra formulação, porque a data não é festiva: «Ucrânia assinala quatro anos de guerra amanhã.»
4. No que se lê no espaço público, também a ortografia chama novamente a atenção por dois motivos, um relacionado com um comunicado de um partido político e outro, com o registo dicionarístico de derivados de nomes comuns ingleses:
– Por parte do PAN, a denúncia justa de uma situação grave, a envolver o sacrifício de aves (Facebook, 19/02/2026), pode bem perder impacto por se ter descurado a escrita correta do verbo ver, cometendo um erro risível: onde se lê «vêm-se galinhas e outras aves mortas» deveria ler-se «veem-se galinhas e outras aves mortas». «Vêm-se» é forma de vir-se, que além de forma reflexa de vir, um verbo de movimento, é termo do calão, com o significado de «atringir o orgasmo; ejacular» (cf. Afonso Praça, Novo Dicionário do Calão, Casa das Letras, 2005).
– Sabendo que a letra k faz parte do alfabeto português, embora com restrições no seu uso, causa estranheza que a Infopédia registe lincar remetendo para linkar. Com efeito, as letras k, w e y podem usar-se, mas apenas em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros (Keynes > keynesiano), em símbolos (km) e nomes de unidades de medida (kelvin). A haver aportuguesamento do verbo inglês to link («ligar»), o mais coerente será lincar com c.
5. Na Montra de Livros, apresenta-se a publicação Nós da linguística, que reúne 21 textos originalmente divulgados no projeto Divulgando Linguística, do Departamento de Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), produzidos entre 2020 e 2022. O propósito é o de aproximar o grande público da linguística, sem abdicar do rigor teórico que caracteriza a investigação científica.
6. Acerca dos programas de rádio Língua de Todos e Páginas de Português, toda a informação se encontra disponível na página principal e nas Notícias.
