DÚVIDAS

Infinitivo pessoal e o pronome o

No que concerne ao infinitivo pessoal (ex.: para eu pô-lo..., para tu pore-lo...), a norma culta preconiza a ênclise como regra ou a colocação é facultativa quando o pronome é o acusativo "o" (e suas variantes lo/no)?

Em construções como «para eu o fazer» ou «para eu fazê-lo», existe alguma preferência entre o português europeu e o brasileiro, ou alguma restrição sintática que torne uma das formas menos recomendável?

Obrigado.

Resposta

Antes de responder à questão propriamente, é preciso esclarecer que, segundo nos explica Celso Cunha em sua gramática na seção "Emprego das formas nominais", no capítulo de Verbo, o infinitivo pessoal é aquele que tem sujeito (explícito ou desinencial) e o infinitivo impessoal é aquele que não tem sujeito e, portanto, não tem desinências número-pessoais. Exemplos:

- Apesar de ele ter dinheiro, era sovina. (infinitivo pessoal não flexionado)
- Apesar de terem dinheiro, meus amigos eram sovinas. (infinitivo pessoal flexionado)
- Ter dinheiro nem sempre traz felicidade. (infinitivo impessoal não flexionado)
- Por terem roubado o nosso carro, tivemos de ir a pé até à delegacia. (infinitivo impessoal flexionado)

Dito isso, no registro culto escrito do português brasileiro, a colocação pronominal com a preposição "para" antecedendo infinitivo não flexionado ou flexionado* é facultativa:

- Você me pediu que terminasse o trabalho às 8h. No entanto, para eu o fazer, precisarei do material.
- Você me pediu que terminasse o trabalho às 8h. No entanto, para eu fazê-lo, precisarei do material.
- Você lhes pediu que terminassem o trabalho às 8h. No entanto, para eles o fazerem, precisarão do material.
- Você lhes pediu que terminassem o trabalho às 8h. No entanto, para eles fazerem-no, precisarão do material.

Já a colocação pronominal no português europeu, como se confirma nas páginas 2282 e 2287 da Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, o padrão estabelecido é este (nos dois primeiros casos, o infinitivo não é flexionado; no terceiro, é flexionado):

- Você me pediu que terminasse o trabalho às 8h. No entanto, para eu o fazer, precisarei do material.
- Você me pediu que terminasse o trabalho às 8h. No entanto, para eu fazê-lo, precisarei do material.
- Você lhes pediu que terminassem o trabalho às 8h. No entanto, para eles o fazerem, precisarão do material.

Sempre às ordens!

* O gramático Domingos Paschoal Cegalla entende que a próclise é de rigor com infinitivo flexionado; já o gramático Rocha Lima diz ser facultativa a colocação nesse caso.

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