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A falta de concordância entre formas de tratamento

Do português de Moçambique à perda do latim

1490265858046_latim.jpgEm conversa com um amigo moçambicano, comentávamos a falta de concordância em frases como «Podes imaginar a minha alegria. Receba um grande abraço» ou «Dê-me a tua opinião.» Dizia-me ele que, quando o português, ou outra língua qualquer, sai da fonte, sofre sempre alterações.  

Sobre formas de tratamento de 2.ª pessoa, isto é, formas que indicam a pessoa com quem se fala, sabe-se que constituem um conjunto a que pode faltar coerência. Basta lembrar que, em Portugal, pelo menos, coloquialmente é frequente associar o possessivo vosso (correspondente a vós) ao tratamento vocês, cujo possessivo gramatical seria seus. Em Moçambique, segundo a Gramática do Português (Fundação Calouste Gulbenkian, 2013-2020, pp. 176/177), o imperativo da 2.ª pessoa do singular (tu) dos verbos – por exemplo, receber – é a do conjuntivo, a que se associa a você, o que explica a aparente incongruência de «podes imaginar... receba...» e «-me a tua opinião». Estes usos estão igualmente presentes no português de Angola, de acordo ainda com a Gramática do Português.

Que a mesma língua tem variações e pode até repartir-se para dar origem a novos idiomas, não tem novidade. Mas, numa mesma sociedade, num mesmo território, a extinção é possível, como sabemos, por exemplo, quando uma língua é suplantada por outra.

Lembrei-me, portanto,  do que se passava quando os árabes chegaram à Península Ibérica em 711, conquistando rapidamente a região a que chamaram Al-Andalus, aí permanecendo até ao séc. XV. O latim, deixado pelos romanos, começava a ser esquecido em prol da arábica língua, trazida pelas invasões muçulmanas, o que motivou o famoso lamento de Álvaro de Córdova, citado na obra Portugal e o Islão, de Adalberto Alves (Editorial Teorema, Lisboa, 1991):

«Os nossos jovens cristãos, com os seus ares finos e fala fluente, leem a poesia e os contos dos Árabes, estudam os textos do teólogos e filósofos maometanos, não para os contestarem, mas para aprenderem a exprimir-se em árabe com maior correção e elegância. Onde poderemos encontrar um leigo que leia os comentários em latim às sagradas Escrituras? Quem, de entre eles, estuda os Evangelhos, os Profetas, os Apóstolos? Todos os jovens cristãos notados pelos seus dotes conhecem apenas a língua e a literatura dos Árabes, leem e estudam os livros arábicos, construindo grandes bibliotecas, muito dispendiosas e proclamando em voz alta, por toda a parte, que tal literatura é digna de admiração. Entre milhares, é difícil encontrar um que saiba redigir sofrivelmente uma carta em latim para um amigo, enquanto são inúmeros os que sabem exprimir-se em língua árabe e nela compor poesia com mais arte do que os próprios árabes.»

Será a situação lamentada por Álvaro de Córdova tão diferente assim da nossa época, em que a presença do inglês se faz notar cada vez mais entre jovens e menos jovens?

Fonte

Apontamento pelo autor publicado no Facebook em 15/12/2025.

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