Topónimos romanos em português - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Topónimos romanos em português

A respeito da toponímia latina, e do próprio latim em si, é de amplo conhecimento, mesmo entre os menos esclarecidos na língua, que o português há séculos adota regras bem fixas para tradução e/ou transcrição de elementos provenientes desta língua quase extinta. Contudo, mesmo seguindo as ditas, há certas incongruências aparentes. Por exemplo, é sabido que o -um latino, excetuando casos pontuais como forum (que existe no português como foro/fórum), é transcrito como -o. Assim sendo, diríamos “Moguntiaco”, Londínio, Mediolano, Emínio, etc. Entretanto, quando esse -um é usado na toponímia para descrever, à latina, tribos e povos nativos, como devemos proceder? Nestes exemplos (Augusta Treverorum; Civitas Igaeditanorum; Forum Gallorum) devemos dar preferência à regra (“Augusta Treveroro”; “Cidade Igeditanoro”; “Fórum/Foro Galoro”), ou à tradução («Augusta dos Tréveros»; «Cidade dos Igeditanos»; «Fórum dos Galos»)? Destes últimos, sei que Forum Gallorum em espanhol se diz Foro de los Galos e, por associação, poderíamos admitir uma clara tradução para o português.

Renato de Carvalho Ferreira Estudante de História São Paulo, São Paulo 4K

Se é verdade que, de modo geral, a terminação -um dos substantivos latinos neutros da primeira declinação passa a -o em português (por exemplo, templum > templo, verbum > verbo, vocabulum > vocábulo), importa igualmente recordar que, em vocábulos mais recentes, essa terminação, por vezes, se mantém, como no caso de álbum, factótum, fórum, embora os dois últimos admitam também uma variante com a terminação habitual (factoto, foro). O caso de vade-mécum, vocábulo que, traduzido à letra, significa «vai comigo», é um pouco diferente, porque a terminação -um “pertence” à preposição cum («com»).

Dos primeiros quatro topónimos apresentados pelo consulente, há um cujo aportuguesamento merece reparo. Em latim dizia-se Mogontiacum (com o), e, ao transpor este vocábulo para português, é necessário dar ao ti o valor fonético que ele tinha em latim tardio, pelo que o aportuguesamento correto será Mogoncíaco.

Quanto aos topónimos em cuja composição entra um genitivo plural da segunda declinação (terminação -orum), torna-se difícil aconselhar a forma mais correta, devido à escassa tradição de transposição desse tipo de vocábulos. Conheço apenas dois casos de vocábulos provenientes do genitivo plural latino. Um deles é o substantivo quórum, que provém de quorum («dos quais»), genitivo plural de qui ou quis («que, qual, quem»). O outro é santoro, nome de um bolo que os padrinhos costumavam dar aos afilhados no Dia de Todos os Santos. Este vocábulo é um aportuguesamento de sanctorum («dos santos»), genitivo plural de sanctus («santo»), e provém da expressão omnium sanctorum («de todos os santos»). Num dos vocábulos, precisamente aquele que se formou por via erudita, mantém-se a terminação -um, enquanto no outro, que nos chegou pela boca do povo, essa terminação sofreu a transformação habitual (-um > -o). Poderá esta referência servir-nos de guia? Estou em crer que a escassez de exemplos nos aconselha prudência, pelo que, no meu entender, será mais curial adotar a segunda via sugerida pelo consulente, ou seja, a tradução («Augusta dos Tréveros», etc.).

O aportuguesamento de topónimos latinos, aliás, nem sempre é fácil e linear, como, creio eu, ficou patente nesta resposta mais minuciosa que formulei sobre o assunto, e para a qual remeto o consulente e os leitores interessados.

Gonçalo Neves
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: nome próprio
Áreas Linguísticas: Léxico; Ortografia/Pontuação