«Teve-a breve e misteriosa» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
«Teve-a breve e misteriosa»

Na frase «Teve vida breve e misteriosa o maior artista de sempre da Roma barroca», qual a função sintática de «breve e misteriosa»?

O constituinte responde ao teste «Teve-a breve e misteriosa», parecendo um predicativo do complemento direto.

Será esta a análise correta? Ou a análise que considera «vida breve e misteriosa» como complemento direto e «breve e misteriosa» como modificador do nome restritivo é que está correta?

Muito obrigada pela vossa ajuda.

Sofia Carvalho Estudante Lisboa, Portugal 98

Com efeito, na frase em apreço, o constituinte «breve e misteriosa» desempenha a função sintática de predicativo do complemento direto.

A comprovar esta análise estão os seguintes factos:

(i) o verbo ter pode ter funcionamento transitivo-predicativo, ou seja, selecionar, em simultâneo, um complemento direto e um predicativo do complemento direto, como se observa em (1):

(1) «Tenho as mãos frias.»

Sendo transitivo-predicativo, o verbo ter pode significar, por exemplo (cf. Dicionário Houaiss):

a) “contar com”: «Ter a morte (como) certa.»

b) “caracterizar-se por ou apresentar em si”: «Teve a vida breve e misteriosa.»

c) “fazer determinado julgamento sobre outrem”: «Tinha o João por entendido.»

(ii) o predicativo do complemento direto incide sobre o complemento direto, mas, em caso de substituição por pronome deste complemento, não é afetado:

(2) «Tenho-as frias.»

(3) «Teve-a breve e misteriosa.»

 Recorde-se que o predicativo do complemento direto pode ser desempenhado por um grupo nominal (4), um grupo adjetival (5) ou um grupo preposicional (6):

(4) «Elegeu o Gonçalo chefe de equipa

(5) «Considerou a Maria simpática

(6) «Considerou o trabalho com interesse 

É possível também considerar que o verbo ter é nesta frase um verbo leve (ou verbo suporte). Estes são verbos que sofreram um esvaziamento semântico e que se combinam com complementos nominais para verbalizar estados, propriedades ou localização temporal. Nalguns casos, o verbo leve forma com o seu complemento nominal uma estrutura cristalizada, como se observa em (7) com a expressão «dar corda»:

(7) «Deu corda ao relógio.»

Uma das características desta associação do verbo leve ao complemento nominal passa pela possibilidade de parafrasear esta construção por um verbo pleno relacionado com o complemento nominal, tal como acontece em (8):

(8) «A professora fez uma síntese da matéria.» (= sintetizou a matéria)1

Esta mesma paráfrase pode ser efetuada na frase apresentada pela consulente, pelo que é possível classificar o verbo ter como leve:

(9) «Teve vida breve e misteriosa.» (Viveu breve e misteriosamente).

Não obstante, também no âmbito desta interpretação do verbo ter, o constituinte «breve e misteriosa» funciona como predicativo do complemento direto.  

 Disponha sempre! 

1. Para maior aprofundamento desta questão, cf. Raposo, Gramática do Português. sbt. pp. 1214-1218 e 1348-1350.

Carla Marques
Áreas Linguísticas: Sintaxe