Sobre a metafonia nominal - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Sobre a metafonia nominal

O fenómeno da metafonia nominal caracteriza algumas palavras (aquelas especificadas nas transcrições dos dicionários mais importantes), ou é um fenómeno que, talvez por analogia, caracteriza todos os nomes e adjectivos que acabam com -o e que têm /'O, 'E/ (timbre aberto) no masculino singular?

Por exemplo, nas seguintes palavras plurais, o timbre da vogal é fechado, ou aberto (tendo em conta que o dicionário da Academia indica um timbre fechado das formas singulares, mas não especifica que os plurais tenham metafonia)?

«os abandonos», «os aboios», «os abonos», «os abordos», «os abortos», «os acordos», «os adornos», «os afogos», «os aforros», «são agarenos», «os albedos», «os alhos-porros», «os alvoroços», «os alvorotos», «são amenos», «os amojos», «são anojos», «os antegostos», «os antegozos», «os anterrostos», «é antioquena», «são antioquenos», «os antojos», «os antracenos», «os apodos», «os apojos», «são arabescos», «os arremessos», «os arrochos», «os arroios», «os arrojos», «os arrolos», «os arrotos», «os assertos», «os assopros», «os aterros», «os atropelos», «os autocontrolos», «os autogovernos», «são avessos», «os azotos».

É possível que também a consoante nasal heterossilábica iniba a abertura da vogal acentuada, como em abandonos, abonos, agarenos, amenos?

Ou será que a metafonia depende do grau em que a palavra é culta?

Riccardo Mura Foneticista Tempio Pausania, Itália 7K

Já aqui temos falado várias vezes de metafonia nominal. Relaciona-se principalmente com a alternância, na sílaba tónica de nomes e adjectivos masculinos, entre o fechado no singular e o aberto no plural: n[o]vo ~ n[ɔ]vos. As formas de feminino, se existirem, também têm timbre aberto: n[o]vo ~ n[ɔ]va, n[ɔ]vas.

Tradicionalmente, tende-se a descrever a metafonia como fenómeno que afecta apenas o o tónico e que se localiza nas formas do plural e do feminino de nomes e adjectivos. Com efeito, Celso Cunha e Lindley Cintra (Breve Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Edições Sá da Costa, 1994, págs. 136/137) dizem que «alguns substantivos, cuja vogal tónica é o fechado, além de receberem a desinância -s, mudam, no plural, o o fechado [o] para aberto [ɔ]» (sublinhado nosso). Ou seja, parece que, na perspectiva de Cintra e Lindley, as formas de plural é que são metafónicas. Contudo, a linguística histórica e a fonologia moderna mostram que é no singular que se verifica a metafonia, porque:

a) do latim para o português, foi o o final que fechou um ó aberto ([ɔ]) tónico para ó fechado ([o]) no singular mas não no plural: fŏcum > f[ɔ]go > f[o]go mas plural f[ɔ]gos; nŏuum > n[ɔ]vo > n[o]vo mas plural n[ɔ]vos (cf. Edwin B. Williams, Do Latim ao Português, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2001, págs. 106, 126 e 134);

b) do ponto de vista fonológico, o singular com -o- fechado é que é metafónico, porque é mais complexo que o plural com -o- aberto (ou seja, «é o singular que se manifesta a nível fonético como sendo o resultado da aplicação de um maior número de regras fonológicas» Ernesto d´Andrade, Temas de Fonologia, Lisboa, Edições Colibri, 1992, pág. 56).

Sendo assim, respondendo concretamente às perguntas do consulente:

1. Por razões históricas, a metafonia nominal caracteriza parte importante dos substantivos e adjectivos com -o- tónico na penúltima sílaba e terminados em -o. São também casos de metafonia as palavras que etimologicamente tinham um e aberto na sílaba tónica mas que o fecharam por assimilação de -o final: por exemplo, mĕtu > m[ɛ]do > m[e]do; aduĕrsum > av[e]sso(s), av[e]ssa(s). No entanto, nestas palavras com -e- fechado não há actualmente alternância entre timbre fechado no singular e timbre aberto no plural.

Quanto a falar-se de analogia, esta tem sentido para o aparecimento de plurais com ó aberto não etimológico ou para a existência de variação no plural. Por exemplo, do ponto de vista diacrónico, o feminino e o masculino plural de formoso tinham também -o- fechado como o singular, mas passaram a ter [ɔ] por analogia com itens como nova(s) e novos. Também hoje, apesar de, normativamente, se considerar que o plural de acordo é acordos, com [o] fechado, muitos falantes pronunciam o plural com [ɔ] aberto por analogia com a alternância existente entre fogo e fogos. Outros exemplos desta variação (o plural com -o- fechado é tido por mais correcto):  c[o]ros vs. c[ɔ]ros (plural de c[o]ro), b[o]lso vs. b[ɔ]lsos (plural de b[o]lso).

2. Na lista de palavras indicada pelo consulente, quase todas as vogais tónicas (em penúltima sílaba), sejam elas -o- ou -e-, têm o timbre fechado. A forma autocontrolos pode estar sujeita à analogia com fogo/fogos, mas do ponto de vista normativo o respectivo plural é também com [o] fechado.

3. Segundo Williams (op. cit., pág. 127), as consoantes nasais impediram a metafonia ou analogia. Na actualidade, a mesma tendência se verifica em português europeu. O caso de carbonos e cromos, com [ɔ], não é relevante porque o singular já tem [ɔ] aberto: carb[ɔ]no e cromo (ver dicionário da Academia das Ciências de Lisboa; ver também Andrade, op. cit., págs. 47 e 55).

4. Não creio que a metafonia se relacione com palavras cultas ou eruditas. Pelo contrário, o fenómeno ocorre nas que evoluíram por via popular: porco/porcos, fogo/fogos, novo/novos, ovo/ovos, etc.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma
Campos Linguísticos: Pronúncia; Fenómenos fonéticos