Os porquês dos porquês no Brasil - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Os porquês dos porquês no Brasil

A brasileira Luciana Coelho, no dia 30 de março de 2000, perguntou sobre o uso dos porquês. Apesar de o assunto já ter sido tratado pelo Ciberdúvidas diversas vezes, acho que seria interessante explicar-lhe algumas coisas, para facilitar, em relação ao uso dos porquês no Brasil:
1 - A pergunta que ela deveria colocar no espaço é "Por quê?" ou "Por que..".?" (sem o acento, se depois vier mais alguma coisa). Esse "quê" com acento é usado quando é tônico – simplificando, no fim da oração, nesse caso.
2 - Quando é substantivo, escrevemos "porquê" (junto e com acento). E ele é um substantivo quando for precedido de um artigo, por exemplo ("Não sei o porquê disso"). Em sua pergunta, Luciana deveria ter escrito, portanto, "tenho uma dúvida quanto ao uso do porquê" (com acento).
3 - Aprendemos na escola que devemos usar "por que" na pergunta e "porque" na resposta.
Isso está correto, mas vale acrescentar que o "por que" (separado) vale também para "perguntas indiretas" (orações subordinadas substantivas), como "Não sei por que ele veio".
Não é só quando há um ponto de interrogação que se deve usar o "por que" (separado)! O truque é tentar substitui-lo por "por que razão/motivo" ("Não sei por que motivo ele veio").
4 - Se ela falar uma língua estrangeira como inglês ou alemão, por exemplo, isso pode facilitar no emprego dos "porquês": quando nessas línguas usamos o "why" ou o "warum", temos "por que"; se utilizarmos o "because" ou o "weil", temos o "porque". Isso vale também (na verdade, principalmente) para as tais perguntas indiretas, que geralmente causam muitas dúvidas ("Não sei por que ele veio" = "I don't know why he came" = "Ich weiss nicht, warum er gekommen ist").

Priscilla Nascimento São Paulo, Brasil 4K

1. – A grafia dos porquês difere em Portugal e no Brasil.
Como não tenho a nomenclatura gramatical brasileira, só me posso guiar pela nomenclatura gramatical portuguesa. Ei-la:
A) – Escreve-se porque, quando é:
a) Conjugação causal: não saio, porque está frio.
b) Conjugação final: Luís de Camões escreveu em "Os Lusíadas", II, 7:
«Manda dons mais sagazes, ensaiados,
Porque notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e porque vejam
Os Cristãos, que só tanto ver desejam .»
Nestes versos, o porque é equivalente a para que, a fim de que - na ortografia actual.
c) Advérbio interrogativo:
Porque não vens comigo?
Diz-me lá porque faltaste à aula.
Vou-te dizer porque procedeu ele assim.
Eis porque não concordo contigo.

B) Escreve-se por que, quando é:
a) Por (preposição) + que (pronome relativo): O dinheiro por que (= pelo qual) vendo a minha casa são 50.000$00.
Estão bem à vista as causas por que (= pelas quais) ele fugiu.
b) Por (preposição) + que (pronome interrogativo adjunto): Por que razão/motivo/causa, etc., não vieste ontem? (= por qual razão, etc., não vieste ontem? Ou: qual a razão... por que não vieste ontem?

Por que livros podemos estudar uma língua? (= por quais livros...?)

c) Por (preposição) + que (pronome interrogativo não adjunto):
Por que esperas?
Diferente de:
Porque esperas?
C) Escreve-se porquê, quando é:
a) Advérbio interrogativo:
Andas triste porquê? Anda, fala e diz-me lá porquê.
b) Substantivo:
Precisamos de investigar o porquê dos acontecimentos.

Notas

1 – Nunca de escreve por quê em duas palavras, mas sim< B>porquê.
Este porquê tanto se pode escrever no princípio da frase, como no meio ou no fim:
a) Porquê seres tu assim tão atrevido?
b) Não compreendo o porquê do teu procedimento.
c) Ele anda muito triste, mas sei porquê.

2 - Em Portugal, escreve-se:
a)Porque não posso ficar aqui?
No Brasil, se não estou em erro, escreve-se:
b)Por que não posso ficar aqui?
A explicação é esta, se é que não me engano: subentende-se a palavra razão, motivo ou outra: Por que razão...?
Esta explicação – e não conheço outra – não me parece que seja válida, pelo seguinte: a pergunta "Porque não posso ...?", já por si só, significa "Por que razão não posso...?"
3 – Em Portugal não se costuma dizer:" Não sei por que ele veio...", mas sim: "Não sei porque é que ele veio.": ou às vezes: "Não sei porque veio ele". (Em determinadas situações).

José Neves Henriques